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BARONESA (2017): A recusa pelo artifício

Juliana Antunes faz um filme sobre a força sugestiva do relato

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NATURALISMO E FETICHISMO

Apesar do seu aparente minimalismo, é inegável que Baronesa (2017) vem carregado com um arsenal de referências bastante pesado. Como vários longas brasileiros lançados nos últimos anos, o filme remete diretamente ao cinema do português Pedro Costa (já comentado por mim nesse artigo): um olhar revelador sobre uma comunidade marginalizada que tira a sua premissa narrativa do relato dos que vivem ali. Cineastas brasileiros como Adirley Queirós e Affonso Uchoa (um dos montadores de Baronesa) talvez sejam, atualmente, os autores do nosso país que mais exploram essa abordagem.

É indiscutível que essa tendência naturalista contemporânea – cada vez mais em voga no Brasil e no mundo – pode se transformar, em certos casos, em um fetiche perigoso. Uma busca poética condescendente que meramente se apropria da realidade em questão para evidenciar uma sensibilidade muito mais vaidosa do que de fato preocupada com a sua temática. Nesse sentido, talvez Roma (2018) seja uma das obras que melhor resume esses artifícios, já que é um filme que se preocupa muito mais com a sua imposição estética do que com qualquer particularidade da sua personagem.

No caso de Baronesa, o que mais chama atenção é justamente o oposto. Existe, no filme de Juliana Antunes, uma clara recusa pelo artifício. Ao narrar momentos do cotidiano de Andreia e Leidiane, duas mulheres que vivem em um bairro violento da periferia de Belo Horizonte, a diretora não busca nenhuma imposição estética. Pelo contrário, ela tira os indivíduos em cena de uma posição passiva e se foca em uma dinâmica dramática que, legitimamente, faz parte da natureza do espaço que filma.

Seria Baronesa uma resposta a possível estetização desses temas?

Uma resposta crua frente a fetichização que parece cada vez mais em voga em obras que, constantemente, confundem a relação entre a ficção e o documentário. Tendo em vista a objetividade da abordagem da diretora, o seu foco em um registro muito essencial do que está à sua frente, fica perceptível uma recusa proposital por qualquer composição visual que se sobressaia aos relatos narrados.

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A NATUREZA DO RELATO

Muito mais do que buscar planos bonitos ou vislumbres poéticos genéricos, o longa se debruça sobre a natureza do relato. Diálogos e falas entre aqueles que estão a frente de câmera que, em alguns momentos, beiram até o verborrágico. Uma abordagem muito espontânea que ao invés de estabelecer uma linha dramática problematizadora, age como simples testemunha do seu entorno. Tira a sua denúncia do vínculo singelo que estabelece com o que é narrado.

Não é a câmera de Juliana Antunes que impõe a construção do filme, são os relatos que constroem a narrativa. Uma narrativa que, muitas vezes, atua como simples sugestão, já que os espaços filmados, propriamente, são sempre muito limitados. A força das imagens está muito mais naquilo que é contado pelas protagonistas, nos seus dramas pessoais que vão desde sexualidade, traumas da infância a dilemas familiares e ausência da figura masculina, do que exatamente no que se passa em cena.

São os indivíduos e seus relatos que moldam a obra. Toda a aproximação formal – a forma como o trabalho é filmado – expõe essa preocupação. Os planos de Baronesa são muito simples e objetivos. Priorizam muito mais as imagens implícitas nas falas das moradoras do que uma articulação estética impositiva sobre a sua realidade. A decupagem se resume a uma funcionalidade essencial: planos gerais dos diálogos, alguns closes e poucas imagens do cotidiano do bairro. O relato por si só já possui uma narratividade que vale de si.

Ironicamente, o teor cinematográfico é ditado justamente pela realidade daquele ambiente: durante a gravação de uma das sequências, equipe e elenco são surpreendidos por um tiroteio real. A câmera cai no chão e todos correm para se proteger. O suspense, esse artifício tão caro ao cinema narrativo, manifesta-se despropositadamente. É determinado pela natureza tensional daquele espaço.

Pode-se argumentar que o fato da diretora ter mantido essa sequência no corte final do filme caracteriza-se como um artifício em si, já que inegavelmente a cena possui um apelo muito forte. Porém, a obra parece muito mais preocupada em evidenciar a crueldade do seu entorno do que em trabalhar com aquele registro de modo sensacionalista. Ainda mais que, apesar da rispidez dos relatos, boa parte das sequências do filme se passam em ambientes tranquilos. O tiroteio quebra essa falsa serenidade e expõe a real situação em que todos ali vivem.

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SOLIDÃO E ISOLAMENTO

Baronesa, em última análise, é um filme sobre o isolamento. Não apenas no sentido da marginalização social, de um isolamento imposto pela situação de fragilidade daqueles que protagonizam o longa, mas o isolamento da solidão daquelas mulheres.

A sequência final, que mostra Andreia construindo a própria casa no bairro que dá nome ao filme, é ao mesmo tempo empoderadora como melancólica. O trabalho que é geralmente praticado por um homem (erguer uma casa, tijolo a tijolo) é realizado por uma mulher. Da solidão nasce a resistência, da ausência do outro nasce a independência, mas com ela também um inegável sentimento de desolação que fecha a obra.

Apesar do foco do filme em um tema social que envolve, certamente, uma relação de coletividade, um contexto que abrange a vida de toda uma comunidade, a cineasta destaca relações pessoais. Mal vemos outros moradores do bairro. Existe uma limitação – e aí situa-se a real força minimalista do trabalho – que se inclina em revelar o coletivo pelo indivíduo.

Longe da pretensão fetichista que caracteriza o trabalho de alguns outros diretores que seguem essa mesma linha – esse naturalismo contemporâneo em que o método, muitas vezes, soa mais autoimportante do que o tema –  Juliana Antunes busca uma simplicidade muito legítima. Um registro que evidencia a força sugestiva do relato e rejeita artifícios estéticos em voga.

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