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CINEMA E IDEOLOGIA: Para além das boas intenções

Até que ponto devemos julgar um filme apenas pela importância do seu tema?

Na noite da cerimônia da última edição do Oscar, o artista e diretor Bruce LaBruce postou um tuíte afirmando que Infiltrado na Klan (2018), o filme de Spike Lee que concorria a alguns prêmios, era uma obra superestimada e que “cinema não é ideologia”:

Uma frase direta, mas que com certeza carrega várias camadas de significados.

Até que ponto devemos julgar um filme apenas pela importância do seu tema?

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UM FILME NÃO É FEITO DE BOAS INTENÇÕES

É cada vez mais comum, nos dias de hoje, uma parte do público julgar um filme muito mais pela importância do seu tema e não tanto pela natureza cinematográfica do trabalho. Nesse caso, a relevância e o contexto do tema contam mais do que a maneira que o realizador se utilizou da linguagem para concretizar a sua problemática.

O real impacto de uma obra não deveria ser definido, justamente, pela forma que o filme concilia o conteúdo e a linguagem?

Um filme não é feito de boas intenções. Um cineasta pode ter, na teoria, o melhor dos propósitos, pode trazer temas importantíssimos à tona, porém, se o seu trato com a linguagem for fraco, o resultado da obra será minimizado. Ou, pior ainda, terá um efeito inverso ao proposto inicialmente.

Em Roma (2018), de Alfonso Cuarón, é possível observar essa inversão. Apesar do mexicano possuir o desejo de realizar uma obra que, na teoria, é uma homenagem à sua babá e suas memórias de infância, a abordagem genérica e automatizada da direção torna o longa fetichista. Explorei essa minha perspectiva em um texto sobre o filme.

Pode-se argumentar que o momento político do mundo, em vários casos, demanda uma natural necessidade de filmes que tratem de temas relevantes. Com certeza absoluta o cinema e o meio audiovisual são das armas mais poderosas nesse sentido. Mas de que adianta contextualizar uma problemática, se o seu vínculo expressivo é ineficiente ou, como no caso de Cuarón, cheio de vícios de uma linguagem pretensamente artística?

Momentos políticos chaves implicam em, precisamente, uma maior responsabilidade com a linguagem. Em tempos de tensão, toda obra de arte tem ainda mais chances de ser recontextualizado e reapropriada. Nesse sentido, quando um filme possui uma relação fraca ou ambígua com a linguagem, essa fragilidade, além de torná-lo possivelmente ineficiente, é oportuna para o outro lado.

Uma obra com uma temática importante e uma linguagem mal trabalhada pode, em última análise, ser irresponsável com o seu tema. O que mais prejudica do que evidencia seus objetivos.

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OSCAR 2019

A última edição do Oscar foi bastante reveladora desse debate. Filmes como  Infiltrado na Klan (2018) e Green Book: O Guia (2018) podem ser tratados como casos  bem específicos na relação entre cinema e ideologia.

O longa de Spike Lee propõe uma abordagem política muito instigante que vai desde evidenciar um discurso de ódio institucionalizado, hoje, nos Estados Unidos, a questionar filmes canônicos que tiveram o seu racismo velado por sua grandeza histórica – como é o caso de O Nascimento de uma Nação (1915) e …E o Vento Levou (1939).

Toda a intenção do filme de Lee faz completo sentido com o tempo histórico que vivemos e, em vários momentos do longa – em especial durante os dois primeiros atos –  o diretor consegue concretizar isso muito bem. Mas Infiltrado na Klan é também um filme irregular. Uma obra que, especialmente na resolução de seus dramas, não dá conta da grandeza que propõe. Sua abordagem dramática não sustenta a potência política proposta. Assim como Roma, escrevi um texto em que trato desse meu ponto de vista.

Para muitos espectadores, o trabalho do diretor funcionou em todos os sentidos. Se eu não considero que o longa explorou suas possibilidades da melhor maneira possível, isso não significa que eu sou contra o que ele defende. Minha postura crítica em relação a linguagem é independente disso e se foca na maneira em que o tema foi articulado, não simplesmente em seus efeitos ilustrativos.

Green Book: O Guia possui uma forma muito mais clássica em toda a sua estrutura: uma história sobre empatia aos moldes de Frank Capra. Um trabalho até certo ponto despretensioso, já que a questão racial surge menos como problemática urgente (como no caso de Spike Lee) e mais como contextualização dramática que move a narrativa.

O problema é que, ao assumir a questão racial como mero acessório, Peter Farrelly torna sua obra didática e limitada. Ainda que o trabalho, de modo geral, possua um equilíbrio entre todos os seus atos e nem pareça interessado em uma desconstrução muito profunda de seus personagens, a sua conduta oportuna com o tema minimiza suas possibilidades cinematográficas.

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UM MODELO DE PERCEPÇÃO

Muitas vezes, quando a questão ideológica é tratada de maneira muito ilustrativa em um filme, forja-se um apelo emocional que afeta diretamente o público. Nesse movimento, alguns defeitos na relação do filme com a linguagem acabam sendo ignorados ou relevados.

A ideologia – qualquer ideologia – com certeza absoluta pode usar o cinema como uma arma. Uma ferramenta que irá reforçar seus princípios. Mas restringir nossa análise crítica somente a questões temáticas de uma obra é completamente limitador.

Gostar de um filme apenas porque ele trata de um tema importante e não pela maneira que ela faz isso é, na verdade, negativo para o próprio tema abordado, já que legitima-se uma possível negligência da obra com a sua proposição.

Um bom filme, para passar sua mensagem, irá se preocupar com todas as suas partes. Ele não vai, meramente, ilustrar a sua temática. Uma grande obra de arte irá, de algum modo, incorporar essa temática na sua própria linguagem. Ela irá conceber um modelo de percepção a partir disso.

Vamos pensar, por exemplo, nos filmes do diretor português Pedro Costa.

Grande parte dos filmes de Costa – como No Quarto da Vanda (2000) e Juventude em Marcha (2006) –  são sobre imigrantes caboverdianos que vivem em Portugal à margem da sociedade. O diretor, ao tratar dessa perspectiva, incorpora o relato daquela realidade em uma linguagem muito específica.

Um cinema íntimo, de construções pictóricas decadentes e barrocas que representa com singularidade a desolação daqueles espaços e personagens. Pedro Costa transforma uma possível ideologia em uma forma de percepção que conduz a linguagem.

Outro ótimo exemplo de um filme que, assim como as obras de Pedro Costa, equilibra a sua temática com a linguagem proposta, é o longa-metragem Wanda (1970), da norte-americana Barbara Loden.

Barbara Loden, que teve uma carreira como atriz de teatro e cinema, propõe, em seu filme, uma experiência radical em vários sentidos. Wanda narra a história de uma mulher, interpretada pela própria Loden, que abandona toda a função social e familiar que é submissa. Passa a viver com criminosos e leva uma vida sem qualquer responsabilidade moral.

O filme denuncia, de maneira muito crua, a inevitável objetificação da personagem, já que depois de desertar de todas essas funções familiares e sociais que se espera, tradicionalmente, de uma mulher, Wanda perde qualquer valor para a sociedade.

A maneira absolutamente impiedosa que Loden narra a história se reflete na linguagem do trabalho. Filmado com poucos recursos e de maneira até mesmo improvisada em algumas situações, o longa assume uma abordagem crua e realista. Integra sua pobreza de recursos na sua estética. O que, se por um lado torna o trabalho ainda mais pesado e tétrico, por outro evidencia, de maneira magistral, a sua temática na sua forma. Concebe uma unidade entre o seu conteúdo – a sua ideologia e o seu tema – e a maneira de lidar com a natureza do cinema.

Os exemplos dos trabalhos de Pedro Costa e Barbara Loden podem, em alguma medida, parecer extremos. Até porque são obras que beiram o experimental. Com certeza é possível encontrar filmes mais narrativos – ou mesmo de uma linguagem mais tradicional – que equilibram a sua temática com a sua linguagem.

Os longas brasileiros O Som ao Redor (2012) e Que Horas Ela Volta? (2015) fazem isso.  Ambos transpõe uma noção de classe e propriedade para a relação entre a câmera o espaço.

Anna Muylaert através de um jogo claustrofóbico de limites e fronteiras implícitas na maneira em que filma suas internas. Uma radiografia de demarcações históricas que é revelada puramente pela geografia do ambiente doméstico.

Kleber Mendonça Filho em uma relação com a amplidão, com um horizonte inalcançável que seu filme evidencia. Uma perspectiva de liberdade que está sempre em oposição a um espaço privado limitado.

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A MORAL DE UM FILME

A linguagem cinematográfica, por si só, não é ideológica. Ela é um meio de expressão sem uma moral pré-estabelecida. É na maneira de lidar com a linguagem, na unidade entre o tema e a forma, que um filme define sua ideologia.

Ou seja: a linguagem, por ela mesma, não possui uma moral. Um simples plano geral (ou qualquer outro elemento cinematográfico), por ele mesmo, não carrega em si uma doutrina. Não possui um princípio que é da sua natureza. É na maneira que esse elemento é usado em um filme que ele ganha características ideológicos.

Levando em conta que um filme, simplesmente por existir, faz o uso da linguagem, podemos afirmar que todos os filme possuem peculiaridades ideológicas? É possível realizar um filme não ideológico?

Toda escolha, mesmo que inconsciente ou impensada, possui uma moral implícita. Defende uma visão de mundo. Mesmo trabalhos que, pretensamente, não defendem nada, estão, implicitamente, demarcando um tipo de posição. Explorei um pouco mais esse pensamento no meu vídeo A Moral de um Filme.

Existem diversos casos de filmes que podem não soar ideológicos por rejeitar um tratamento temático óbvio, porém suas escolhas formais e narrativas revelam certa atitude.

La La Land: Cantando Estações (2016), por exemplo, é um filme, ao seu modo, bastante moralista. Um trabalho que se utiliza da nostalgia não apenas como um mero fetiche visual, mas usa da história do jazz para defender uma rejeição presunçosa pelo contemporâneo. Algo que acaba sendo velado pelos artifícios visuais virtuosos, ainda que vazios, de Damien Chazelle.

Outro caso interessante de uma articulação ideológica conservadora que, até certo ponto, funciona na surdina, são os filmes de Jason Reitman. Porém, diferente de Chazelle, Reitman, que realizou longas como Juno (2007), Amor sem Escalas (2009) e Tully (2018) é um pouco mais direto com suas intenções.

Apesar do realizador, em sua filmografia, sempre questionar instituições tradicionalmente americanas como a família e o papel das corporações, Reitman nunca as rejeita diretamente. Pelo contrário, ele humaniza essas instituições. Encontra um ideal de ordem implícito em suas funcionalidades.

Tully (2018) é um filme que fala sobre a fragilidade do papel da mãe, da sua aplicabilidade biológica até, nunca para subverter essa ideia, e sim legitimá-la a partir de um discurso sensível e contemporâneo. Reiterando, inclusive, um ideal ancestral da importância da família.

O Favorito (2018), o último trabalho de Reitman, reforça ainda mais uma ideia sagrada do matrimônio entre homem e mulher.

O caso é que Jason Reitman faz isso bem. Seus filmes são, em última análise, moralistas. Porém, sabem se articular. Você pode não concordar com tudo o que ele defende, com a temática que ele aborda – eu mesmo não concordo – mas reconheço uma unidade narrativa e dramática em seu trabalho. Uma singularidade entre o tema implícito e a linguagem trabalhada.

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O FILME COMO UM TODO

Ao analisarmos um filme, devemos levar em consideração a sua forma e o seu tema como um universo só. Uma obra que trata um desses lados como um elemento separado, isolando-o do resto da sua articulação, sempre será problemática.

Da mesma forma que posso concordar com a ideologia defendida em Infiltrado da Klan e desgostar do seu tratamento dramático, posso apreciar o tratamento dramático de Tully e discordar de sua ideologia implícita.

O importante, em todos os casos, é perceber de que maneira os realizadores conciliam a linguagem e o tema. Que modos de percepção são propostos nesse trajeto. Ou, ainda, se um modo de percepção é minimamente proposto ou não. Devemos pensar nas implicações do filme como um todo e, sendo assim, julgá-lo pelo seu equilíbrio em todos os sentidos.

Escute o ÁUDIO desse conteúdo.

Assista ao vídeo “O CINEMA É IDEOLÓGICO?”:

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