Chloé Zhao transforma o luto em uma experiência coletiva mediada pela encenação
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Ambientado na Inglaterra elisabetana, o filme acompanha a vida cotidiana da família Shakespeare e o impacto devastador da morte do jovem Hamnet. A narrativa segue a mãe, Agnes, o pai ausente e os filhos que crescem em meio a uma rotina doméstica marcada por trabalho e afeto.
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DA EXPERIÊNCIA SENSORIAL À GRAMÁTICA CLÁSSICA
Até aproximadamente a metade de sua duração, Hamnet se apresenta como um filme ainda em processo de descoberta de sua própria forma. A abertura sugere uma filiação estética bastante clara ao cinema de Terrence Malick, principalmente na maneira como constrói uma relação sensorial com a natureza e com os corpos.
A câmera se aproxima dos personagens com delicadeza e privilegia a impressão de espontaneidade e a sensação de que a vida está sendo capturada antes de ser plenamente organizada pela encenação.
Nesse primeiro movimento, o filme parece interessado em instaurar um regime de percepção baseado menos em acontecimentos dramáticos e mais em gestos e ritmos cotidianos.

Existe, nesse início, uma tentativa evidente de estabelecer um fluxo entre o tempo e a experiência doméstica, como se a narrativa emergisse gradualmente da materialidade do cotidiano. Trata-se de uma aposta em uma dramaturgia difusa, sustentada por atmosferas e pela observação sensível de microgestos, em vez de uma progressão narrativa rigidamente estruturada.
Essa promessa inicial aponta para um filme potencialmente mais atmosférico e sensorial, interessado em fazer da experiência familiar uma vivência quase tátil. Gradualmente, porém, o projeto se desloca. Sem que a transição seja propriamente abrupta, o filme migra para um drama histórico de feição mais convencional.
A sensação que permanece é menos a de uma ruptura brusca e mais a de uma indecisão estética que atravessa o miolo da obra. Aquilo que no início se insinuava como um cinema de fluxo e de sensações vai sendo substituído por uma gramática dramática mais reconhecível com enquadramentos neutros, decupagem funcional e uma progressão narrativa alinhada a parâmetros clássicos.
Essa mudança não compromete o interesse dramático – existem momentos genuinamente fortes, principalmente nas cenas envolvendo as crianças, nas quais a espontaneidade das performances produz um impacto emocional considerável.

Ainda assim, o filme parece perder parte da singularidade que sua abertura prometia. É apenas no movimento final que a obra volta a se transformar com maior contundência ao assumir um registro formalista mais rígido que culmina na encenação da peça.
Uma sequência que figura entre os momentos mais marcantes do ano e que reconfigura retroativamente a experiência do filme.
De modo geral, a tentativa de Chloé Zhao de integrar uma abordagem de atuação mais espontânea ao drama histórico é digna de interesse. Existe uma naturalidade perceptível nas interações e nos silêncios que confere ao filme uma dimensão emocional concreta e palpável. Entretanto, no segmento central, a câmera parece recuar.
Surge uma timidez formal que a posiciona mais como observadora do que como participante do núcleo familiar, como se a abordagem estética hesitasse em se implicar plenamente nas relações que registra.
É possível ler esse distanciamento como uma escolha deliberada, talvez destinada a sublinhar uma distância emocional entre os personagens ou uma sensação de desalinhamento dentro da família.
Porém, o efeito resultante é ambíguo. Em vez de configurar uma distância expressiva, a encenação por vezes assume um caráter genérico. A distância que poderia ser carregada de sentido acaba, em certos momentos, se aproximando de uma neutralidade formal que enfraquece a singularidade inicialmente sugerida pelo filme.
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A REPRESENTAÇÃO COMO GESTO DE DESPEDIDA
Nesse contexto, Jessie Buckley emerge como o verdadeiro centro gravitacional do filme.
Mesmo nos momentos em que a encenação se aproxima de soluções mais convencionais, sua presença reconfigura o clima das cenas e restitui uma densidade emocional que ultrapassa a superfície dramática.
Existe, em sua performance, uma notável capacidade de produzir intensidade a partir de gestos mínimos. Seu rosto parece constantemente atravessado por pensamentos que extrapolam o enquadramento, como se uma vida interior persistisse para além daquilo que o filme efetivamente mostra.

Essa qualidade de “excesso” emocional – de algo que continua a acontecer fora de campo – contribui decisivamente para sustentar a dimensão afetiva da obra.
Paul Mescal, por sua vez, surge de forma mais discreta. Sua atuação não compromete o conjunto, mas carece da mesma potência para sustentar um drama tão profundamente interiorizado. Diante da densidade expressiva de Buckley, sua presença tende a se diluir, como se o filme encontrasse nela o principal veículo de sua gravidade emocional.
É, contudo, na sequência final que Hamnet altera decisivamente seu patamar artístico. O que impressiona nesse desfecho é a maneira como a encenação consegue articular o luto materno à própria experiência do espectador dentro do espaço teatral.
Se a figura paterna parece ter recorrido à escrita e à encenação como forma de organizar a dor e encontrar um gesto possível de despedida, a mãe percorre o caminho inverso. É pela identificação com a representação que ela revive a presença perdida.

O momento alcança uma força particular porque essa experiência não se restringe ao âmbito individual. O público que assiste à peça dentro do filme participa emocionalmente do processo e a emoção se expande para além da protagonista.
O teatro é então transformado em um espaço de comunhão afetiva no qual a arte surge como um meio capaz de produzir sentido quando a vida cotidiana falha. A representação aparece, assim, como a única forma possível de reinscrever o mundo após a ruptura traumática ao converter o luto privado em experiência compartilhada e, por fim, em gesto de elaboração coletiva.
