ALFRED HITCHCOCK: O Controle do Olhar

Uma introdução aos temas, formas e procedimentos centrais do cinema de Alfred Hitchcock

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O cinema de Alfred Hitchcock costuma ser lembrado pela eficácia do suspense. No entanto, reduzir sua obra a essa etiqueta significa perder de vista a complexidade de um cineasta que transformou o suspense em um sistema formal ao articular percepção, tempo, ética e experiência do espectador.

Este artigo propõe uma leitura do cinema hitchcockiano a partir dessa perspectiva ampliada. Ao longo do texto, analisamos alguns de seus principais procedimentos estéticos, bem como temas recorrentes que atravessam sua filmografia.

O objetivo é compreender como Hitchcock constrói uma experiência cinematográfica profundamente implicada na qual ver nunca é um gesto inocente. Seu cinema transforma o espectador em participante ativo de uma cadeia perceptiva e moral, convidando-o a compartilhar a espera, a impotência, o desejo e a responsabilidade diante do que é visto.

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PRINCIPAIS REFERÊNCIAS

Este artigo dialoga diretamente com um conjunto de referências críticas fundamentais para a compreensão do cinema de Alfred Hitchcock.

O livro Alfred Hitchcock: Filmmaker and Philosopher, de Mark William Roche, oferece a base conceitual para pensar o suspense hitchcockiano como uma experiência de duração e como um dispositivo que articula medo, esperança, conhecimento e impotência, permitindo uma leitura ética e filosófica da obra.

A tese Vertigo, a teoria artística de Alfred Hitchcock e seus desdobramentos no cinema moderno, de Luiz Carlos Oliveira Jr., contribui para a compreensão do simbolismo discreto e integrado ao naturalismo clássico, bem como para a centralidade das formas visuais no cinema hollywoodiano de Hitchcock.

O ensaio Hitchcock diante do mal, de Claude Chabrol, fundamenta a leitura moral do suspense ao compreender os filmes como dilemas éticos e provações humanas diante do mal, sob uma matriz fortemente influenciada pela tradição católica.

O artigo O suspense hitchcockiano, de Pascal Bonitzer, é central para a análise formal da mise en scène, da montagem, do ponto de vista e da noção de “mancha”, oferecendo instrumentos precisos para entender como o suspense se organiza a partir de pequenas dissonâncias que reconfiguram a percepção do espectador.

Por fim, o texto Hitchcock contra Hitchcock, de André Bazin, no qual a reflexão teórica se cruza com o relato de um encontro pessoal com o diretor.

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O SUSPENSE COMO PRINCÍPIO ESTRUTURANTE

Entre os diversos temas e gêneros mobilizados ao longo de sua filmografia, o suspense se impõe como o grande princípio organizador do cinema de Alfred Hitchcock.

Mais do que um simples efeito pontual destinado a provocar choques momentâneos no espectador, o suspense constitui, em sua obra, uma lógica formal abrangente, capaz de estruturar o tempo do filme, o regime de informações narrativas e, sobretudo, a posição do espectador diante da imagem.

Festim Diabólico (1948)

Ao contrário de uma concepção apelativa do suspense como sinônimo de susto ou surpresa imediata, Hitchcock concebe esse efeito como uma experiência de duração.

O suspense, em seu cinema, não se esgota em um instante isolado de impacto, mas se constrói progressivamente a partir da organização minuciosa da espera, da antecipação e da impotência.

É um princípio que atravessa o filme de maneira orgânica, orientando tanto a decupagem quanto a montagem, o ritmo narrativo e a relação ética e perceptiva que o espectador estabelece com os acontecimentos.

Mark William Roche, em seu livro Alfred Hitchcock: Filmmaker and Philosopher, define o suspense hitchcockiano dessa forma:

“O suspense opera na dialética entre o medo e a esperança. Estamos incertos quanto ao resultado, temendo o pior, esperando o melhor. Somos absorvidos por situações que são incomuns, repulsivas e não resolvidas facilmente.”

Essa formulação é central para compreender o modo como os filmes de Hitchcock funcionam dramaticamente. Em inúmeras situações, seus personagens se encontram diante de um perigo iminente, mas são incapazes de agir de maneira eficaz. Ou desconhecem a natureza exata da ameaça, ou ainda, quando a reconhecem, estão física ou socialmente impedidos de intervir.

Essa condição de impotência se converte em uma experiência sensível compartilhada pelo espectador. A identificação não se dá somente com o drama psicológico dos personagens, mas com a própria impossibilidade de ação.

O espectador vê, compreende, antecipa o perigo, mas permanece, assim como o protagonista, paralisado. É nesse intervalo entre o saber e o não poder agir que o suspense se instala como experiência estética e emocional.

Em Janela Indiscreta (1954), o protagonista testemunha aquilo que parece ser um assassinato, mas está confinado a um espaço físico extremamente limitado. A perna quebrada o impede de investigar diretamente e de intervir.

Quanto mais ele observa as ações do vizinho suspeito, mais o espectador é envolvido nessa relação de impotência compartilhada. A tensão nasce da espera e da repetição de pequenos gestos aparentemente banais que ganham progressivamente um peso dramático.

Janela Indiscreta (1954)

Essa construção temporal é fundamental. Os filmes de Hitchcock raramente podem ser descritos como lentos. Entretanto, existe neles uma elaboração gradual do drama na qual o suspense se articula ao desenvolvimento de conflitos individuais.

Nesse sentido, o perigo se infiltra lentamente na rotina dos personagens ao transformar o cotidiano em um campo de tensão permanente.

Esse mecanismo parte também da constatação essencial de que ser humano é atraído pelo desconhecido, por aquilo que escapa à compreensão imediata.

O cinema de Hitchcock explora sistematicamente essa pulsão. Seus filmes quase sempre se organizam em torno de um elemento oculto. Uma razão desconhecida, um passado encoberto, uma intenção ambígua.

O espectador é mantido em um estado constante de curiosidade e inquietação diante daquilo que não é plenamente revelado.

Não se sabe exatamente o que o tio Charlie fez em A Sombra de uma Dúvida (1943); não se sabe se Marion conseguirá escapar com o dinheiro em Psicose (1960); não se sabe se o vizinho observado por James Stewart em Janela Indiscreta (1954) é, de fato, um assassino.

Em alguns casos, Hitchcock opta por revelar esse elemento oculto ao espectador antes de fazê-lo ao protagonista.

Essa assimetria de informação intensifica ainda mais o suspense, já que o espectador passa a ocupar uma posição privilegiada e, ao mesmo tempo, profundamente frustrante. Ele sabe mais, mas continua impotente. A angústia nasce precisamente dessa discrepância entre conhecimento e ação.

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A COMÉDIA COMO CONTRAPONTO ESTRUTURAL

Embora o suspense seja o eixo organizador mais evidente do cinema de Alfred Hitchcock, sua obra dialoga de maneira constante e sofisticada com a comédia.

Desde a fase inglesa, muitos de seus filmes, ainda que estruturados a partir de situações de perigo ou crime, incorporam elementos cômicos de forma recorrente e deliberada. A presença do humor não é episódica nem acidental, mas cumpre uma função dramática precisa dentro do sistema narrativo hitchcockiano.

Mark William Roche observa que o humor nos filmes de Hitchcock nasce da fricção entre o comum e o grave, entre a banalidade do cotidiano e as situações extremas vividas pelos personagens.

É um humor que emerge do descompasso entre a objetividade do perigo e a trivialidade com que determinados personagens – ou mesmo o próprio filme – lidam com esse perigo.

Frenesi (1972)

Assim como o suspense se constrói pela duração e pela espera, a comédia hitchcockiana frequentemente se estabelece pela repetição, pelo contraste e pelo deslocamento de expectativas.

O próprio Hitchcock reconhecia explicitamente a função do humor em sua obra. Em diversas entrevistas, ele afirmou que, diante da tensão prolongada imposta ao espectador, era necessário oferecer momentos de alívio cômico.

Esse alívio, entretanto, não funciona como simples distração, mas como um componente essencial da experiência emocional do filme. Ao relaxar momentaneamente o espectador, o humor prepara o terreno para que o retorno ao perigo seja sentido de maneira ainda mais intensa.

Um exemplo particularmente elucidativo pode ser encontrado em Frenesi (1972). No filme, o inspetor-chefe responsável por investigar assassinatos brutais e explicitamente violentos é recebido em casa pela esposa, que se dedica com entusiasmo a experimentos culinários sofisticados e excêntricos, refeições que ele claramente detesta, e que até lembram partes do corpo humano.

Essas cenas domésticas funcionam quase como pequenas esquetes cômicas estruturadas pela repetição. O espectador passa a antecipar não apenas o retorno do personagem ao lar, mas também a nova refeição estranha que lhe será imposta.

Esse humor doméstico se contrapõe frontalmente à violência gráfica dos assassinatos mostrados no filme. O efeito não é apenas o de tornar a narrativa momentaneamente mais leve, mas de acentuar, por contraste, a brutalidade dos crimes.

Um procedimento semelhante aparece em O Homem que Sabia Demais (1956), na cena em que o personagem de James Stewart segue uma pista equivocada e acaba em uma loja de taxidermia.

O Homem que Sabia Demais (1956)

Apesar da situação dramática extrema – a busca desesperada por um filho sequestrado -, a sequência se desdobra como uma espécie de gag prolongada, marcada pela frustração e pelo constrangimento. O humor surge da inadequação do espaço e da ação, sem que o filme perca de vista a gravidade do conflito central.

As próprias aparições de Hitchcock em seus filmes, sempre breves e localizadas nos momentos iniciais, passaram a funcionar como pequenas gags autorreferenciais. O reconhecimento do diretor pelo público transforma essas aparições em um jogo cúmplice que estabelece desde cedo um pacto lúdico com o espectador.

Em última instância, as cenas cômicas no cinema de Hitchcock não apenas tornam os filmes mais acessíveis ou divertidos, mas reforçam o próprio mecanismo do suspense de duração. Ao alternar tensão e alívio, o diretor intensifica a experiência emocional do espectador e potencializa o impacto dos atos violentos.

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TEMAS RECORRENTES E DISPOSITIVOS NARRATIVOS

Diversos estudiosos do cinema de Alfred Hitchcock identificam, ao longo de sua filmografia, um conjunto consistente de temas, situações e estruturas narrativas recorrentes.

Mesmo não sendo o autor da maioria de seus roteiros, Hitchcock exercia um controle rigoroso sobre os projetos que escolhia adaptar – fossem romances, contos ou peças teatrais – e supervisionava de perto o trabalho de seus roteiristas.

Essa curadoria temática revela uma coerência autoral que transcende a autoria estrita do texto e se manifesta na repetição deliberada de certos motivos dramáticos.

Nesse aspecto, esses temas funcionam como verdadeiros dispositivos formais, capazes de organizar a relação entre o filme, os personagens e o espectador.

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Voyeurismo e o espectador como cúmplice

O voyeurismo constitui um dos dispositivos centrais do cinema hitchcockiano, atuando simultaneamente como tema narrativo e como mecanismo de implicação do espectador.

Hitchcock parte da premissa de que o ser humano sente prazer em observar o outro sem ser visto, prazer esse marcado por uma dimensão ética ambígua. Em seus filmes, esse impulso não é reprimido ou moralizado de maneira simplista, mas exposto e estruturado formalmente.

Em Janela Indiscreta (1954), esse ato de olhar é literalizado. Jeff observa seus vizinhos à distância, transformando o cotidiano alheio em espetáculo. Ao mesmo tempo, o filme convida o espectador a compartilhar dessa mesma posição voyeurística, colocando-o em uma situação de cumplicidade moral.

Psicose (1960)

Em Psicose (1960), o voyeurismo assume contornos mais perturbadores, sendo diretamente associado à violência e à repressão sexual. O olhar deixa de ser apenas curioso e passa a carregar uma dimensão patológica que culmina em atos extremos.

Já em Marnie, Confissões de uma Ladra (1964), o olhar controlador é integrado à dinâmica conjugal. O desejo de conhecer e vigiar o outro se transforma em instrumento de dominação afetiva e psicológica do marido em relação a esposa.

Hitchcock não condena frontalmente o voyeurismo, mas o revela como parte constitutiva da experiência cinematográfica. Ao fazê-lo, obriga o espectador a reconhecer sua própria cumplicidade dentro desse dispositivo, tornando o ato de assistir ao filme um gesto eticamente implicado.

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O inocente acusado e a instabilidade da identidade

Outro tema recorrente no cinema de Hitchcock é o do inocente injustamente acusado, frequentemente associado a processos de troca ou instabilidade de identidade.

O próprio diretor afirmou que esse motivo intensificava o suspense, pois facilitava a identificação do público. Qualquer indivíduo comum poderia ser lançado, de forma arbitrária, em uma situação de perigo extremo.

Filmes como Os 39 Degraus (1935), Sabotador (1942) e Intriga Internacional (1959) exemplificam esse padrão narrativo.

Neles, indivíduos comuns são arrancados de suas rotinas e forçados a agir sob identidades que não controlam plenamente. Em muitos casos, tornam-se fugitivos da polícia, o que aprofunda a sensação de isolamento e desamparo.

É significativo notar que, nesses filmes, a identidade não é definida apenas por uma essência interior, mas por uma função social. Aquilo que os outros acreditam sobre o personagem passa a determinar quem ele é, revelando uma concepção instável e relacional da identidade.

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O motivo do duplo

O tema do duplo constitui outro princípio estruturante recorrente no cinema de Hitchcock. Essa duplicidade pode se manifestar como uma divisão entre ordem e caos, bem e mal, desejo e repressão, ou ainda entre aparência social e pulsão interna.

André Bazin observou que Hitchcock se interessava particularmente pela fascinação que um personagem aparentemente fraco exerce (ou sofre) em relação a outro mais forte ou mais transgressor.

Em A Sombra de uma Dúvida (1943), essa relação é evidente. A jovem Charlie, símbolo de inocência, é fascinada pelo tio homônimo, um assassino. O duplo aqui funciona tanto no nível do nome quanto no nível moral, instaurando uma relação de espelhamento perturbadora.

Um Corpo que Cai (1958)

Em Pacto Sinistro (1951), Bruno executa o crime que Guy apenas desejou, exigindo posteriormente uma reciprocidade mortal. O duplo funciona como a materialização de um desejo reprimido.

Já em A Tortura do Silêncio (1953), o assassino transfere simbolicamente sua culpa ao padre, num gesto que Bazin interpreta como teologicamente significativo, ligado à ideia de expiação e sacrifício.

Esse motivo atinge sua forma mais radical em Um Corpo que Cai (1958). A oposição entre Judy e Madeleine constitui talvez o duplo mais complexo de toda a obra hitchcockiana.

Madeleine é uma construção fantasmática, um ideal fabricado para ser desejado e perdido. Judy, por sua vez, é o corpo real condenado a encarnar e repetir esse fantasma. O filme explora essa lógica de maneira extrema ao revelar o duplo como uma estrutura de dominação e repetição compulsiva.

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Autoridade como ameaça

Outro aspecto recorrente no cinema de Hitchcock é a representação das autoridades – policiais, políticos ou instituições do Estado – como figuras ineficazes, ambíguas ou diretamente ameaçadoras.

Essas instâncias raramente garantem proteção efetiva e, em muitos casos, agravam o perigo enfrentado pelos protagonistas.

Essa desconfiança institucional reforça o isolamento dos heróis hitchcockianos, que frequentemente precisam agir apesar das autoridades, e não com o apoio delas.

O suspense se intensifica à medida que o protagonista percebe que não pode contar com estruturas oficiais para resolver o conflito, sendo forçado a agir por conta própria.

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Vilões carismáticos e a sedução do mal

Os vilões do cinema de Hitchcock raramente são figuras simplesmente desprezíveis. Ao contrário, costumam ser charmosos, educados e socialmente integrados, o que força o espectador a confrontar sua própria atração pelo mal.

Quando o vilão apresenta traços mais patológicos, essa patologia não é marginalizada, mas transformada em núcleo de interesse dramático, como ocorre de maneira paradigmática em Psicose (1960).

Essa ambiguidade moral contribui para dissolver a fronteira clara entre bem e mal, sugerindo que o mal não é algo exterior ao mundo social, mas algo que se infiltra nele de forma sedutora e cotidiana.

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A figura materna problemática

Por fim, um motivo recorrente e decisivo é a presença de figuras maternas problemáticas, associadas à repressão e ao controle afetivo. Diversos personagens hitchcockianos mantêm relações conflituosas com a mãe ou com uma ideia internalizada de maternidade.

Norman Bates leva essa relação ao extremo em Psicose (1960), mas o tema também aparece, como aponta Mark William Roche, na mãe possessiva de Os Pássaros (1962), na mãe ridicularizada de Intriga Internacional (1959) e na mãe controladora de Interlúdio (1949).

Essas figuras estruturam, em diferentes graus, os impasses emocionais e psicológicos dos personagens.

De modo mais amplo, Hitchcock desenvolve uma abordagem específica – e profundamente ambígua e problemática – da representação feminina, questão explorada à luz das teorias feministas nas reflexões de Tania Modleski, que ainda iremos tratar em artigos específicos sobre Rebecca, a Mulher Inesquecível (1940) e Um Corpo que Cai (1958).

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O SUSPENSE COMO REVELAÇÃO DE UM DILEMA MORAL

Ao aprofundar a análise dos temas centrais do cinema de Alfred Hitchcock, Claude Chabrol propõe uma das leituras mais fecundas de sua obra no ensaio Hitchcock diante do mal.

Para Chabrol, compreender plenamente Hitchcock exige ultrapassar a imagem consagrada do “mestre do suspense”. O autor afirma:

“O interesse dos filmes de Hitchcock é totalmente outro, nos quais o tipo de questão colocada é sempre, em última análise, um dilema moral, na maioria das vezes circunscrito a um número bem limitado de personagens.”

O suspense, nesse sentido, não seria um fim em si mesmo, mas o meio pelo qual dilemas morais se tornam sensíveis.

Segundo Chabrol, os crimes cometidos nos filmes de Hitchcock jamais constituem o objetivo último da narrativa. Eles funcionam como provações, como situações-limite que colocam os personagens diante do mal e os obrigam a se posicionar ética e existencialmente.

A Tortura do Silêncio (1953)

A essência dessas obras residiria, portanto, na maneira como os personagens preservam (ou perdem) uma certa dignidade humana ao confrontar o mal. Essa concepção estaria profundamente ligada a uma matriz de inspiração católica.

Hitchcock foi educado em uma escola jesuíta e permaneceu católico ao longo da vida. Embora seu cinema não seja religioso em sentido explícito, Chabrol identifica nele inúmeros traços de uma ética católica subjacente, particularmente no modo como o mal é concebido e representado.

Diferentemente de tradições maniqueístas ou melodramáticas comuns, o mal, no cinema de Hitchcock não se apresenta como uma entidade plena e autônoma.

A concepção do mal, aqui, dialoga com uma noção clássica do pensamento cristão, segundo a qual o mal não possui substância própria, mas se manifesta como ausência ou distorção do bem.

Chabrol inicia seu ensaio com uma citação de São Basílio que afirma precisamente que o mal não existe como essência positiva, mas como uma falha no bem. Essa ideia ajuda a compreender por que Hitchcock raramente constrói vilões absolutos ou figuras demoníacas plenamente constituídas.

Em vez disso, o mal se manifesta em seus filmes por meio de sinais, lacunas, desequilíbrios e fissuras.

Chabrol aponta, por exemplo, a falange ausente do professor Jordan em Os 39 Degraus (1935) como um indício físico e simbólico de um desvio. Menciona também o quadro grotesco que assombra a protagonista de Chantagem e Confissão (1929), funcionando como uma imagem perturbadora que sinaliza uma desordem moral latente.

Chantagem e Confissão (1929)

Em Suspeita (1941), o mal se expressa na crise conjugal, no fosso afetivo que separa o casal, mais do que em qualquer crime explícito. Já em Quando Fala o Coração (1945), a amnésia do protagonista aparece como uma forma de desequilíbrio que compromete sua responsabilidade moral.

Em todos esses casos, o mal não se corporifica plenamente, já que se insinua por meio de ausências e disfunções.

Essa lógica reforça a ideia de que, no cinema de Hitchcock, não existem vilões absolutamente irredimíveis. Seus personagens praticam o mal por escolha própria, após algum tipo de desvio, mas quase sempre recebem a possibilidade de redenção.

Figuras como o tio Charlie, em A Sombra de uma Dúvida (1943), ou Bruno, em Pacto Sinistro (1941), são confrontadas com a chance de se entregar, de reconhecer a própria culpa e de agir corretamente. Existe, nesses filmes, uma crença persistente em um núcleo humano capaz de resistir ao mal.

Essa confiança na possibilidade de salvação, ainda que frequentemente frustrada, também se articula a uma visão católica do mundo. No entanto, a maioria desses personagens escolhe permanecer no mal ao recusar o arrependimento voluntário.

Chabrol observa ainda que os desfechos otimistas de alguns filmes de Hitchcock costumam depender da fidelidade dos personagens a uma verdade interior ou da confissão de uma falta, de um “pecado”.

Em Sob o Signo de Capricórnio (1949), a personagem de Ingrid Bergman encontra alívio para sua perturbação ao assumir o crime que cometeu.

Em Interlúdio (1946), a infelicidade prolongada dos personagens interpretados por Cary Grant e Ingrid Bergman decorre do fato de não assumirem, desde o início, o amor que sentem um pelo outro, falhando em ser verdadeiros consigo mesmos.

Em A Tortura do Silêncio (1953), o dilema moral atinge uma forma particularmente rigorosa. O padre protagonista poderia facilmente se salvar se revelasse a confissão do assassino.

No entanto, fazê-lo significaria trair sua fé e sua função sacerdotal. É justamente por permanecer fiel a esse papel, recusando-se a quebrar o sigilo da confissão, que ele encontra sua salvação.

Além disso, muitos filmes de Hitchcock articulam uma lógica de punição que pode ser lida como moralizante.

Em Psicose (1960), Marion Crane viola um mandamento fundamental ao roubar o dinheiro. Ainda que posteriormente se arrependa, ela é punida de forma brutal. Em outras obras, essa lógica punitiva assume contornos ainda mais cruéis, reforçando a dimensão ética subjacente às narrativas.

O suspense hitchcockiano existe, nessa perspectiva, para que esses dilemas possam ser vivenciados de maneira sensível e dramática.

Ainda que Hitchcock não tenha formulado conscientemente todos esses princípios, sua formação católica e sua inclinação moralista podem ter estruturado essa visão de mundo de forma intuitiva ou parcialmente refletida.

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CONTROLE ABSOLUTO E A FABRICAÇÃO DE UM MÉTODO

Uma das características mais reconhecíveis da direção de Alfred Hitchcock é a ideia de um controle quase total sobre o processo de elaboração de seus filmes.

Não se trata apenas de um controle estético, no sentido de possuir um “estilo” facilmente identificável, mas de um controle operacional e metodológico que envolve o planejamento minucioso das cenas e a articulação precisa entre roteiro, decupagem, filmagem e montagem.

Hitchcock acompanhava de perto as versões de roteiro e mantinha diálogo constante com seus roteiristas. Um ponto recorrente em depoimentos e estudos sobre seu processo é a insistência em resolver as cenas de modo visual.

Sempre que possível, a dramaturgia deveria ser organizada por ações, gestos, deslocamentos, objetos e relações espaciais, e não por explicações verbais.

Storyboard de Os Pássaros (1963)

Essa exigência se conecta a um traço mais amplo de seu método. Hitchcock possuía conhecimento técnico em praticamente todas as áreas do cinema industrial de sua época e planejava o filme com antecedência, em colaboração estreita com a equipe. Em muitos casos, chegava ao set com a cena previamente “fechada” na cabeça, como uma composição já definida.

É nesse contexto que se torna célebre sua associação a storyboards detalhados. O storyboard, para Hitchcock, era um instrumento de controle sobre o filme enquanto forma.

O diretor buscava filmar aquilo que havia sido decupado e, em certos casos, filmar apenas aquilo. A razão não era meramente econômica ou organizacional. Exista também uma intenção autoral muito clara: filmar de modo tão específico que o material resultante só pudesse ser montado segundo uma lógica determinada.

Em outras palavras, limitar opções na filmagem era, paradoxalmente, um modo de preservar a unidade formal do filme e reduzir a interferência de decisões externas na montagem.

Esse aspecto explica, por exemplo, os atritos com David O. Selznick, para quem seria desejável acumular tomadas e alternativas de cena, gerando mais liberdade na pós-produção.

A recusa hitchcockiana a “cobrir” cenas com opções suplementares contrariava uma mentalidade de produção mais típica do estúdio, na qual a montagem poderia funcionar como instância de reformulação. Hitchcock, ao contrário, idealizava a filmagem como execução de um projeto já plenamente concebido.

Hitchcock no set de Marnie, Confissões de uma Ladra (1964)

Esse “controle absoluto”, contudo, não pode ser tomado como um dogma histórico. Parte de sua força decorre do fato de que Hitchcock também cultivou a própria lenda ao alimentar uma imagem de diretor que já tinha tudo resolvido antes de a câmera rodar.

Essa figura do cineasta demiúrgico, que simplesmente “executa” um plano perfeito, é sedutora, mas alguns estudos sugerem que ela é, em parte, uma construção.

Nesse ponto, a pesquisa de Bill Krohn é especialmente relevante. Ao examinar versões de roteiros, notas de produção, materiais preparatórios, storyboards, depoimentos e registros de processo, Krohn conclui que a aura do controle absoluto, embora baseada em elementos reais, foi muitas vezes exagerada.

Em diferentes projetos, Hitchcock reescreveu cenas durante as filmagens, alterou planos previamente decupados e, em certos casos, filmou tomadas adicionais.

Ainda assim, quando comparamos seu processo ao de cineastas que operam com maior improvisação e menor pré-visualização (ou que sequer recorrem a storyboards), torna-se evidente que Hitchcock preservava um grau incomum de controle sobre as variáveis do filme.

Essa sensação é perceptível no resultado. Existe um domínio constante sobre ritmo, ponto de vista, distribuição de informação e progressão dramática. Em termos práticos, mesmo que o “absoluto” seja um mito parcial, o controle permanece como traço real e estruturante.

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UM ESTILO ESSENCIALMENTE VISUAL

Em termos formais, a principal característica do estilo de Hitchcock pode ser descrita como essencialmente visual.

O próprio, em entrevista a André Bazin,  já afirmou:

“A priori, interesso-me muito pouco pela história que vou contar; apenas a maneira de contá-la é que me importa.”

O sentido do cinema, nesse horizonte, não reside primariamente no enredo enquanto relato, mas na organização expressiva de imagens e sons no tempo.

Hitchcock insistiu mais de uma vez que, para ele, a forma mais pura de cinema era o cinema mudo. Não se trata de nostalgia, mas de uma tese estética. O cinema falado, em sua visão, teria abandonado parcialmente a invenção visual ao recorrer com frequência excessiva à exposição por diálogos.

Quando o filme depende demais da fala para explicar o que acontece, ele renuncia a capacidade de mostrar, de sugerir, de construir informação e emoção pelo olhar, pelo gesto, pela escala do plano, pela duração, pela montagem, pelo som ambiente e pela música – sem transformar o diálogo em muleta narrativa.

A própria influência que Hitchcock absorveu do cinema alemão dos anos 1920 reforça essa concepção. A tradição alemã confiou intensamente no poder plástico da imagem.

Janela Indiscreta (1954)

Hitchcock herda essa confiança e a reinscreve no cinema industrial anglo-americano ao extrair do espetáculo narrativo um rigor visual que frequentemente se impõe com clareza.

Um elemento decisivo dessa visualidade é a recusa em “ilustrar” tudo por meio de diálogos ou explicações. Boa parte da tensão hitchcockiana nasce do fato de que o filme não verbaliza o que poderia verbalizar. Ele nos força a acompanhar, interpretar e antecipar pela organização do olhar.

Em Janela Indiscreta (1954), por exemplo, a sequência em que a personagem de Grace Kelly entra no apartamento do vizinho suspeito se resolve com uma economia verbal extrema.

Permanecemos alinhados ao ponto de vista do personagem de James Stewart; o que ocorre do outro lado do pátio se desenrola quase como um cinema mudo.

Em Os Pássaros (1963), quando Lydia descobre o corpo do vizinho, Hitchcock organiza uma sucessão de planos que escalonam o choque até a revelação do rosto morto. A personagem não precisa enunciar sua angústia. Ela reage, foge e acelera o seu carro.

O próprio diretor comenta, em linhas gerais, que a velocidade do carro já exprime o estado emocional da personagem nessa cena. Isto é, o movimento físico e a relação com o espaço substituem a explicação psicológica.

Cortina Rasgada (1966)

Em Cortina Rasgada (1966), existe uma longa cena em que personagens tentam matar um agente soviético em silêncio, para que o taxista do lado de fora não escute nada.

A cena se torna um laboratório de cinema visual com olhares, objetos, limitações do espaço, planos fechados que guiam a atenção do espectador e intensificam a progressão dos acontecimentos.

Os detalhes – mãos, utensílios, superfícies, deslocamentos mínimos – se tornam decisivos. A tensão cresce porque o filme nos obriga a acompanhar uma cadeia concreta de ações em que cada ruído possível vira ameaça.

Já em Topázio (1969), a sequência inicial do resgate da família russa se constrói majoritariamente por imagens. Mesmo sem compreendermos plenamente o enredo naquele ponto, entendemos que existe perseguição, risco e vigilância em curso.

O engajamento emocional antecede a compreensão total do “plot”, precisamente porque o cinema hitchcockiano sabe produzir sentido por situação e desenho de ações.

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A “MANCHA” E A REORGANIZAÇÃO DA CENA

Uma das convenções mais sofisticadas da direção de Alfred Hitchcock – e também uma das mais reveladoras de sua abordagem estética – reside na maneira como ele guia o olhar do espectador por meio da decupagem ao isolar certos objetos ou detalhes visuais que passam a reordenar toda a lógica da cena.

Não se trata apenas de destacar um elemento importante para a narrativa, mas de instaurar uma ruptura perceptiva dentro de um espaço inicialmente banal.

Pascal Bonitzer, no ensaio O suspense hitchcockiano, formula essa operação a partir da noção de “mancha”:

“O cinema hitchcockiano se agencia assim: tudo anda normalmente, na média, mesmo na mediocridade e na insensibilidade gerais, até que alguém percebe que um elemento do conjunto, por um comportamento inexplicável, produz uma mancha. […] É sempre em torno dessa mancha que se organizam os efeitos de mise en scène mais especificamente hitchcockianos.”

Segundo o autor, muitas cenas do cinema de Hitchcock se iniciam em um regime de normalidade. O cotidiano parece fluir sem sobressaltos, dentro de uma paisagem comum, marcada pela rotina e pela previsibilidade.

É nesse contexto aparentemente neutro que surge um pequeno elemento dissonante, um detalhe que se destaca do conjunto, ainda que de modo sutil. Essa dissonância visual é o que Bonitzer denomina “mancha”.

Intriga Internacional (1959)

A partir do surgimento dessa mancha, a cena se reorganiza. O enquadramento, o movimento de câmera, o ritmo da montagem e a atenção do espectador passam a gravitar em torno desse ponto de estranhamento.

A ameaça não se impõe de imediato. Ela se constrói progressivamente, como se o mal emergisse de forma lenta e quase imperceptível no interior de uma paisagem cotidiana. É um procedimento em que o perigo não irrompe de fora, mas se infiltra no banal, contaminando-o pouco a pouco.

Essa lógica está diretamente ligada a uma concepção recorrente do cinema hitchcockiano: a ideia de que o mal nasce de elementos comuns e de situações aparentemente inofensivas.

A mise en scène não enfatiza o extraordinário desde o início, mas espera que algo mínimo rompa a homogeneidade do quadro e passe a concentrar o sentido dramático.

Um exemplo clássico desse procedimento é a célebre cena do avião em Intriga Internacional (1959). O espaço é um ambiente rural amplo e despojado, uma paisagem ordinária, quase vazia.

Dentro desse cenário, o avião agrícola surge inicialmente como um ponto distante, um elemento funcional e comum àquele contexto. Ele é, num primeiro momento, apenas uma mancha minúscula no horizonte.

A cena começa a se transformar quando um personagem observa que o avião parece estranho, pois sobrevoa uma área sem plantações. A partir desse comentário, a mancha se converte em foco de atenção e, gradualmente, em ameaça explícita.

O que era um detalhe banal passa a organizar toda a tensão da sequência, culminando no ataque direto ao protagonista.

Interlúdio (1946)

O mesmo princípio está em operação no célebre plano da chave em Interlúdio (1946). A cena se inicia com um plano plongée do salão, aparentemente destinado a situar o espaço social e a dinâmica dos personagens.

No entanto, a câmera lentamente se aproxima de um ponto específico: a chave que dará acesso à adega. Essa chave funciona como a mancha da cena. Um objeto pequeno, mas carregado de significado, pois esconde o segredo central dos vilões nazistas.

A mise en scène se reordena a partir desse detalhe, e o movimento da câmera parece literalmente puxado por ele, conduzindo o olhar do espectador àquilo que realmente importa.

Em diversos filmes de Hitchcock, a câmera trabalha exatamente desse modo. Começa por um campo amplo, aparentemente neutro, e progressivamente se deixa atrair por um detalhe que passa a concentrar a tensão dramática.

Esses elementos começam como manchas quase insignificantes, mas aos poucos reorganizam toda a lógica da decupagem, redefinindo o que deve ser visto, temido e antecipado.

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O SIMBOLISMO DISFARÇADO

Talvez o aspecto mais decisivo da abordagem de Alfred Hitchcock – aquele que melhor explica a persistência de seu legado – seja a maneira como ele transforma objetos, situações e ações ordinárias em formas visuais marcantes, capazes de se fixar na memória do espectador.

São imagens que sobrevivem ao esquecimento da trama, convertendo-se em ícones de seu cinema e, em muitos casos, em verdadeiros núcleos simbólicos.

Jean-Luc Godard observou que é possível esquecer diversos aspectos narrativos dos filmes de Hitchcock, mas quase impossível apagar da memória suas imagens fundamentais.

Pode-se não recordar com precisão o que a personagem de Ingrid Bergman foi fazer no Brasil em Interlúdio (1946), mas a imagem da chave em sua mão permanece.

Pode-se esquecer os meandros do enredo de Suspeita (1941), mas dificilmente se esquece do copo de leite iluminado que Cary Grant leva à esposa. Pode-se perder os detalhes da trama de Pacto Sinistro (1951), mas não os planos envolvendo os óculos.

Do mesmo modo, mesmo que se esqueçam as circunstâncias que levaram Marion Crane ao motel em Psicose (1960), a cena do chuveiro permanece como uma das imagens mais célebres e reproduzidas da história do cinema.

Pacto Sinistro (1951)

Esse predomínio da forma visual não implica um simbolismo ostensivo ou alegórico. Ao contrário, como observa Luiz Carlos Oliveira Jr., em sua tese Vertigo, a teoria artística de Alfred Hitchcock e seus desdobramentos no cinema moderno, trata-se de um simbolismo que emerge da própria gramática do cinema clássico:

“Hitchcock não recorre ao simbolismo carregado, explícito: os eventuais sentidos suplementares e conotações do objeto são aclimatados dentro do próprio contexto naturalista da representação.”

Não existem aqui metáforas óbvias nem signos declarados. O sentido simbólico nasce da organização interna das imagens, da repetição, da ênfase, do enquadramento e da montagem.

Hitchcock não recorre à deformação expressionista do espaço para representar estados psicológicos. Ele evita distorcer cenários ou estilizar artificialmente a imagem para “ilustrar” a subjetividade dos personagens.

Em vez disso, desloca essa carga expressiva para a maneira como organiza os elementos reais da cena. A câmera permanece objetiva, mas o encadeamento dos planos psicologiza a percepção.

O espectador não entra em um mundo visualmente distorcido, mas passa a perceber o mundo real como o personagem o percebe, com suas limitações, medos e incertezas.

A sequência do assassinato no chuveiro, em Psicose (1960), é exemplar nesse sentido. O ambiente não é deformado nem estilizado. A fotografia é relativamente realista, o banheiro é banal, funcional.

No entanto, a montagem fragmentada, marcada por cortes rápidos e por uma sucessão de enquadramentos parciais, produz uma experiência perceptiva radical.

A ausência de referências espaciais claras, o fluxo da água, a proximidade dos planos e a fragmentação do corpo simulam a perda de controle e de orientação vivida por Marion. A cena não simboliza o medo, mas faz o espectador experimentá-lo.

Quando Hitchcock deseja conferir a um objeto um valor mais expressivo ou simbólico, ele evita a ruptura total com o realismo. O objeto permanece integrado ao espaço narrativo como algo funcional e plausível, ainda que receba um tratamento visual específico.

Luiz Carlos Oliveira Jr. recorre, nesse contexto, ao conceito de “simbolismo disfarçado”, formulado por Erwin Panofsky, para descrever esse procedimento. O símbolo hitchcockiano não se apresenta como mensagem codificada a ser decifrada, mas como um elemento ordinário que adquire densidade expressiva dentro da lógica do filme.

Suspeita (1941)

Em Suspeita (1941), por exemplo, o copo de leite funciona como um possível símbolo da desconfiança da personagem de Joan Fontaine em relação ao marido.

O leite pode ou não estar envenenado. O objeto, portanto, não simboliza um fato, mas um estado mental: a suspeita, a paranoia, talvez até a loucura. Trata-se de um elemento trivial, plenamente funcional dentro da cena, que se torna simbólico pelo modo como é enquadrado e iluminado.

O brilho do copo reforça sua importância, mas de maneira discreta, sem romper o realismo da situação. O símbolo permanece camuflado no interior do naturalismo hollywoodiano.

Uma consequência decisiva desse procedimento, como afirma Luiz Carlos Oliveira Jr. é que, no cinema de Hitchcock, todo o campo da imagem se torna potencialmente simbólico.

Como os símbolos não são explicitamente marcados, qualquer elemento banal pode adquirir valor metafórico ou psicológico, desde que integrado a uma lógica narrativa e perceptiva coerente.

Isso não significa que tudo deva ser interpretado simbolicamente, nem que cada objeto esconda um significado secreto. Significa que o cinema de Hitchcock cria uma zona de ambiguidade controlada na qual o real nunca é apenas funcional.

Nesse regime estético, os objetos não se destacam completamente do mundo, mas se confundem com ele. Os símbolos não se impõem como alegorias evidentes, mas se infiltram na mise en scène, camuflados na banalidade do cotidiano.

É justamente essa economia de sublinhado simbólico que confere às imagens hitchcockianas sua força duradoura. Formas visuais que permanecem abertas à interpretação, sem jamais abandonar a coerência do mundo representado.

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O PONTO DE VISTA E A DRAMATURGIA DO OLHAR

Um dos elementos técnicos mais recorrentes e decisivos no cinema de Alfred Hitchcock é o uso sistemático dos planos em ponto de vista. Momentos em que a câmera simula, de maneira explícita ou implícita, o olhar de um personagem.

Longe de ser um recurso pontual, esse procedimento se torna um princípio estruturante de sua mise en scène e de sua dramaturgia.

Hitchcock trabalha com grande rigor uma cadeia perceptiva relativamente simples, mas de enorme potência dramática: primeiro, mostra alguém olhando; em seguida, mostra aquilo que essa pessoa vê; por fim, apresenta a reação a essa visão.

Essa tríade – olhar, objeto do olhar, reação – integra o espectador ao processo perceptivo do personagem. Não se trata apenas de observar alguém que vê, mas de ver como essa pessoa vê, assumindo temporariamente sua posição no mundo.

Em muitos casos, o olhar deixa de ser um gesto neutro e se transforma em um verdadeiro evento dramático. A narrativa avança porque algo é visto; porque uma imagem provoca desejo, suspeita, medo ou obsessão; porque o ato de olhar desencadeia consequências morais ou afetivas.

O cinema de Hitchcock, nesse sentido, é profundamente estruturado pela visualidade enquanto ação.

Janela Indiscreta (1954) constitui o exemplo mais radical e transparente desse princípio. Todo o filme é organizado a partir de um regime de visão específico. O protagonista observa o mundo através de uma janela, utilizando binóculos e lentes teleobjetivas.

A decupagem inteira se submete a essa condição perceptiva. O espectador compartilha exatamente das mesmas limitações espaciais e visuais do personagem, já que a câmera nunca atravessa o pátio dos prédios.

Tudo o que sabemos, suspeitamos ou tememos deriva exclusivamente daquilo que pode ser visto à distância, sob ângulos parciais e incompletos.

Um Corpo que Cai (1958)

Em Um Corpo que Cai (1958), essa lógica do ponto de vista adquire uma dimensão ainda mais profunda e perturbadora, quase patológica. Scottie segue Madeleine, observa seus gestos, seus trajetos e seus rituais cotidianos.

A narrativa se organiza como uma cadeia de imagens filtradas por esse olhar obsessivo. O espectador é progressivamente arrastado para dentro dessa obsessão visual, passando a experimentar o mundo segundo a perspectiva instável do protagonista.

Nesse caso, o ponto de vista fabrica. Madeleine é uma construção imagética, um conjunto de aparições cuidadosamente encenadas para serem vistas. Trata-se menos de uma pessoa do que de uma imagem destinada ao desejo e à projeção.

Scottie se apaixona, literalmente, por uma imagem, por uma figura que não existe fora do regime visual que a produz.

O célebre efeito de dolly zoom nas escadas materializa esse colapso perceptivo. A instabilidade visual provocada pelo efeito surge como uma tradução formal da incapacidade do personagem de sustentar uma percepção estável do real.

O ponto de vista entra em crise e o próprio espaço passa a refletir essa desorientação. O dolly zoom funciona, assim, como um signo visual da falência do olhar enquanto instância de controle e compreensão.

Cortina Rasgada (1966)

Mesmo em filmes nos quais o ponto de vista não constitui o tema central, Hitchcock recorre frequentemente a esse tipo de plano como forma de mediar sensações e implicar o espectador de maneira mais intensa.

Em Cortina Rasgada (1966), a longa cena do assassinato em silêncio é construída a partir de uma sucessão de planos-detalhe que assumem o ponto de vista dos personagens em busca de soluções improvisadas. O espectador acompanha o raciocínio visual dos personagens, compartilhando a urgência, a limitação e o risco envolvidos em cada gesto.

Essa lógica da câmera que assume a perspectiva do personagem – seja de modo explícito, seja de maneira mais sutil – é uma constante no cinema de Hitchcock. Ao fazê-lo, o diretor compromete o espectador ética e emocionalmente com o que é visto. Ver, em seus filmes, é sempre um gesto carregado de consequências.

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A MONTAGEM COMO PRINCÍPIO EXPRESSIVO

Desde suas primeiras obras, a montagem ocupa um papel central no cinema de Alfred Hitchcock. Ela funciona como um princípio expressivo ativo, responsável por produzir muitos dos efeitos fundamentais de seus filmes: o suspense, o humor, a ambiguidade moral e, em diversos casos, imagens de forte carga simbólica e icônica.

Autores como Mark William Roche e Pascal Bonitzer destacam justamente a variedade e a sofisticação do uso da montagem no cinema hitchcockiano.

Trata-se de um conjunto de procedimentos que se adaptam ao efeito dramático desejado em cada situação. Hitchcock alterna, com grande precisão, entre fragmentação extrema e dilatação temporal, entre aceleração violenta e espera prolongada.

Em alguns casos, a montagem é responsável por sugerir analogias ocultas ou ironias morais que não estão explicitadas em nenhum plano isolado ou nos diálogos.

Chantagem e Confissão (1929)

Um exemplo particularmente elucidativo ocorre em Chantagem e Confissão (1929). Em determinado momento, Hitchcock corta do inspetor de polícia esfregando as mãos, confiante de que solucionará o crime, para o chantagista realizando o mesmo gesto.

Esse simples raccord estabelece uma equivalência perturbadora entre as duas figuras, desautorizando simbolicamente a autoridade policial. O sentido produzido por esse corte não reside na imagem em si, nem em qualquer cartela ou diálogo, mas na relação entre os planos.

Hitchcock também se notabilizou por empregar ritmos de montagem radicalmente distintos, conforme a natureza da cena. A célebre sequência do chuveiro em Psicose (1960) é construída a partir de cerca de setenta planos em aproximadamente quarenta e cinco segundos.

O assassinato é decomposto ao máximo, fragmentado em ângulos parciais, detalhes e enquadramentos abruptos. A violência da cena deriva da agressão à percepção do espectador. A montagem acelera, fragmenta e desorienta, reproduzindo a incapacidade da personagem de se situar espacialmente naquele momento de pânico absoluto.

Psicose (1960)

Em contraste, a famosa sequência do ataque à escola em Os Pássaros (1963) adota uma montagem lenta e reiterativa. A tensão nasce da alternância paciente entre a personagem de Tippi Hedren e os pássaros que, pouco a pouco, se acumulam atrás dela.

Trata-se de um suspense construído por assimetria de informação. O espectador percebe o perigo se formar enquanto a personagem permanece alheia à ameaça. A espera, nesse caso, é mais angustiante do que qualquer explosão de ação imediata.

Bonitzer observa ainda que Hitchcock frequentemente utiliza um tempo dilatado e antinatural como estratégia de intensificação dramática. A longa cena do chantagista comprando e fumando um charuto em Chantagem e Confissão (1929) prolonga deliberadamente uma situação de irresolução.

O espectador deseja saber o que acontecerá, mas o filme insiste em adiar o desfecho. Bonitzer chega a identificar nesse procedimento um componente quase erótico, entendido como um prazer angustiante da espera. Uma tensão sustentada pelo adiamento contínuo da ação decisiva.

Esse mesmo princípio está presente na primeira parte de Um Corpo que Cai (1958). As cenas de perseguição e contemplação da figura de Madeleine são alongadas de maneira incomum.

O tempo se desacelera para nos inserir na obsessão do protagonista. O espectador passa a compartilhar o prazer inquietante de observar, enquanto permanece sem saber exatamente o que irá acontecer.

Outro procedimento recorrente é o uso da montagem alternada, na qual Hitchcock articula duas ações simultâneas para intensificar o suspense por antecipação.

Pacto Sinistro (1951)

No desfecho de Pacto Sinistro (1951), a montagem alterna entre Bruno retornando ao parque de diversões para plantar o isqueiro que incriminará Guy e as cenas de Guy jogando tênis, tentando terminar a partida rapidamente para impedi-lo.

O espectador acompanha ambas as ações em paralelo, consciente do risco iminente, enquanto os personagens permanecem limitados a suas respectivas situações.

Esse efeito, sistematizado por diretores como Edwin. Porter e D. W. Griffith, é levado por Hitchcock a um grau extremo de refinamento. A montagem alternada se torna um dos pilares do suspense clássico, amplamente reutilizado por inúmeros filmes do gênero até hoje.

Em síntese, Hitchcock não possui um único estilo de montagem, mas um uso estratégico e variado desse recurso. A montagem se adapta ao efeito desejado – seja suspense, humor, ambiguidade moral ou intensidade simbólica – e se revela indispensável para a construção dos dispositivos centrais de seu cinema.

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O CINEMA DE ALFRED HITCHCOCK COMO SISTEMA FORMAL E MORAL

Ao longo deste artigo, procuramos delinear alguns dos eixos centrais que estruturam o cinema de Alfred Hitchcock, compreendendo-o não apenas como um realizador habilidoso do suspense, mas como um cineasta que construiu um sistema formal coerente.

O suspense, longe de ser um efeito isolado ou um mero recurso de entretenimento, revela-se em sua obra como um princípio organizador que atravessa o tempo do filme, a distribuição da informação, o uso do ponto de vista, a montagem e a própria mise en scène.

Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que, apesar de detalhado, este artigo não esgota o cinema de Hitchcock. Sua filmografia é marcada por uma riqueza extraordinária de temas, formas e variações. Questões ligadas à sexualidade, ao gênero, à identidade feminina, à relação entre desejo e poder e à violência simbólica.

Muitos desses aspectos apenas foram tangenciados aqui, não por falta de relevância, mas justamente porque o cinema de Hitchcock resiste a qualquer tentativa de fechamento definitivo.

Talvez essa seja uma de suas maiores forças, já que trata-se de uma obra que, mesmo amplamente estudada e analisada, permanece aberta e provocadora.
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