O AGENTE SECRETO (2025): Política das Superfícies

Kleber Mendonça Filho transforma o suspense político em uma experiência sensorial de lembrança e apagamento

*

O Agente Secreto se passa durante a ditadura militar brasileira e segue Marcelo (ou Armando), um professor universitário e especialista em tecnologia que foge de São Paulo para Recife. Ao buscar refúgio e tentar se reunir com seu filho, ele logo começa a desconfiar que está sendo espionado e se encontra em um ambiente de perseguição e violência inesperada.

*

.
A DILATAÇÃO DO SUSPENSE E A SUSPENSÃO DO CLÍMAX

O Agente Secreto se mostra como um dos exemplos mais sofisticados do recente cinema brasileiro ao abordar a tensão política por vias sensoriais, atmosféricas e sobretudo humanas.

Distanciando-se dos paradigmas mais ilustrativos do thriller político tradicional, o filme adota uma estrutura de suspense dilatado e anti-climático em que o peso das ações é constantemente deslocado para as presenças, os gestos e as superfícies que compõem o mundo visível.

A trama, que poderia se sustentar em um registro de denúncia ou em um esquema dramático de causa e consequência convencional, é antes dissolvida em um campo de percepções.

O interesse do diretor está menos no conflito externo e mais na aura que envolve seus personagens, capturada com uma atenção quase fenomenológica. Existe, nesse sentido, uma clara herança de certo cinema imagético e estilizado dos anos 1970, tanto do thriller europeu quanto do cinema americano paranoico, mas reinterpretada sob uma lógica temporal distinta.

O olhar é mais demorado, marcado por uma temporalidade subjetiva e por uma ação muito mais naturalista, próxima da contemplação sensorial de um cinema moderno.

Desde a primeira cena, ambientada em um pequeno posto de gasolina isolado, já se estabelece uma atmosfera de hiper-realidade: cada detalhe das superfícies – o vidro manchado do carro, o jornal cobrindo um corpo, a textura das roupas – ganha uma densidade quase tátil.

A tensão não se origina de um evento ou de uma ameaça iminente, mas da própria presença material do mundo filmado, de uma atenção quase clínica às minúcias.

No entanto, essa tensão não se converte em clímax. Ao contrário, ela é sistematicamente retardada, transformando o filme em uma espécie de estudo sobre a expectativa e a suspensão.

O que interessa não é o que acontece, mas o modo como se olha, como se sente e como se respira o espaço entre as ações. O Agente Secreto propõe, assim, uma experiência mais próxima da contemplação do suspense do que de sua resolução narrativa. Uma investigação sobre o próprio ato de observar o cinema como campo de presença e de superfície.

.
O POLÍTICO COMO SUPERFÍCIE

A câmera de Kleber Mendonça Filho, no longa, parece agir menos como um instrumento narrativo e mais como um organismo sensível, fascinado pela materialidade do que encontra.

Existe uma busca quase metafísica por uma força imanente nas coisas, uma tentativa de capturar o instante em que a imagem deixa de representar e passa a simplesmente existir. O olhar do filme habita o espaço. E é dessa imersão que surge sua potência estética e emocional.

Essa abordagem já se insinuava em O Som ao Redor (2012) e Aquarius (2016), nos longos diálogos e na decantação das cenas, mas aqui ela atinge uma forma mais depurada e desarmada.

O tempo se torna matéria e os gestos dos personagens – como na cena em que o personagem de Wagner Moura conversa com o filho dentro do carro – revelam uma ternura e uma vulnerabilidade raras no cinema político contemporâneo. O drama se constrói menos pela informação e mais pela respiração da presença, pela verdade silenciosa dos corpos.

Essa diluição progressiva dos temas não é uma evasão da política, mas uma transferência de sua substância para o plano sensorial. O discurso ideológico, outrora explícito, é substituído por um regime de percepção em que tudo – uma parede, um som distante, uma luz – carrega um traço da história.

O político, nesse contexto, deixa de ser um enunciado para se tornar uma textura do mundo. A atmosfera substitui o discurso e a urgência dos acontecimentos se manifesta no modo como o filme vê e sente o presente.

A cena do jantar com o empresário Ghirotti talvez seja a única exceção, o único momento em que o discurso irrompe frontalmente. Mas, mesmo ali, a palavra não anula o mistério das presença e reforça o contraste entre o verbal e o sensorial, entre o dito e o percebido.

A narrativa, de início rarefeita, evita revelar as intenções do protagonista e apenas aos poucos deixa entrever os contornos de seu passado. A montagem paralela – opaca, elíptica, construída em justaposições temporais incertas – atua como um dispositivo de memória em processo.

Quando surgem as cenas contemporâneas, com as jovens ouvindo as fitas, o filme finalmente explicita sua lógica de recordação falha. Esses trechos não funcionam como elucidação, mas como fissuras, pequenas brechas no fluxo narrativo que expõem o artifício da lembrança.

As vozes sobrepostas – ora nos anos 1970, ora no tempo presente – produzem um efeito de simultaneidade ambígua, como se o passado e o presente se contaminassem mutuamente.

O resultado é uma experiência em que o espectador ocupa o lugar do próprio narrador, participando do ato de reconstruir aquilo que nunca se mostra por completo. Nesse gesto, O Agente Secreto expande a ideia de espectatorialidade, já que olhar se torna criador, reconstruindo o mundo a partir de fragmentos de tempo, ruídos e vestígios de afeto.

.
A CÂMERA COMO CONSCIÊNCIA FLUTUANTE

Existe em O Agente Secreto uma percepção curiosamente metafísica da câmera, no sentido dela agir como uma testemunha onipresente. A sensação é de que o olhar do dispositivo se move como uma presença espectral, uma consciência que paira sobre os espaços, captando fragmentos de uma memória que não lhe pertence.

A câmera observa, hesita, se detém, e em sua deriva nasce a impressão de que o filme inteiro é uma “memória acidental”, um conjunto de lembranças que emergem do próprio ato de filmar.

A decupagem de Kleber contribui decisivamente para essa experiência. Seus movimentos de câmera marcantes e de trajetória muito bem delimitada, mas ao mesmo tempo suaves, conferem ao filme uma fluidez singular. Esse olhar não busca intervir ou controlar, mas participar do fluxo do tempo. Filmar é um modo de lembrar e a câmera é uma extensão da memória.

Toda a abordagem estética se constrói nesse território intermediário entre o registro objetivo e a deriva sensorial. Em várias passagens, o enquadramento oscila entre observar e vagar, entre acompanhar a ação e se perder nela.

A sequência final do tiroteio – que se inicia no interior de um cinema e culmina com a morte do personagem de Gabriel Leone – é exemplar nesse ponto.

A precisão coreográfica de uma ação que desencadeia outra é constantemente tensionada pela autonomia do olhar: a câmera se move como se reagisse ao som ambiente, às presenças periféricas, aos ecos do que escapa ao controle narrativo. Trata-se de um suspense da atenção, interessado tanto na percepção como também na mecânica da ação.

Esse mesmo princípio vale para os instantes de humor e de alívio cômico. Eles não se impõem como rupturas tonais, mas se dissolvem organicamente no tecido dramático. O riso surge como gesto espontâneo, quase instintivo, revelando a humanidade por baixo do medo.

A personagem de Dona Sebastiana sintetiza muito bem essa dimensão afetiva. Sua fala livre, suas reações imprevisíveis e seu humor instintivo funcionam como contraponto à rigidez da tragédia. Ela é a figura que impede o desespero de se instalar por completo, improvisando diante do silêncio e transformando o cotidiano em resistência.

Essa naturalidade se estende à construção geral do filme. O Agente Secreto soa profundamente brasileiro não por recorrer a signos identitários explícitos, mas por atingir uma autenticidade imanente. Uma brasilidade que se manifesta na textura dos lugares, nos rostos anônimos, nos gestos, nas canções que atravessam o tempo.

A reconstituição de época, minuciosa e sensorial, evita o fetichismo da ambientação e se integra à mesma lógica de observação amorosa do real.

A somatória desses elementos – o olhar flutuante, a espontaneidade das performances e a organicidade do humor – reforça a ideia de um cinema que pensa a história sem distanciamento, que a vive enquanto a observa.

.
A MEMÓRIA FERIDA E O CINEMA COMO ATO DE SOBREVIVÊNCIA

O desfecho de O Agente Secreto dividiu opiniões, mas é precisamente nesse ponto que o filme revela toda a coerência de sua construção formal.

A estrutura, que desde o início se comporta como uma lembrança falha, encontra em seu final o ápice dessa lógica da rememoração contaminada. Uma memória feita de ruídos, lacunas e afetos que substituem a precisão factual pela densidade emocional.

As inserções das jovens ouvindo as fitas consolidam essa arquitetura de um passado reconstruído a partir de vozes e fragmentos, de uma história contada por quem tenta reimaginar o que restou e não por quem de fato viveu aquilo.

Nesse contexto, o motivo da perna assume uma dimensão simbólica central. Mais do que um artifício narrativo, ela funciona como o ponto de sutura entre o real e o imaginado. Um vestígio físico que denuncia o caráter imperfeito da lembrança.

O fragmento do corpo, despregado de sua função dramática, torna-se uma entidade autônoma, uma espécie de corpo-memória que reorganiza o tempo e perturba o espaço. Em sua aparição na praça, a perna age como presença que curva o real, que interrompe a linearidade do mundo. É, em suma, um gesto metafísico; é o passado materializado como fantasma.

Essa tensão entre material e imaterial atravessa toda a narrativa. As sequências ambientadas nos anos 1970 operam dentro de uma lógica de hiper-realidade emocional – saturada, dispersiva, atmosférica -, como se o tempo do trauma fosse percebido mais em texturas do que em fatos objetivos.

Cada plano desse passado é moldado pelo afeto e pela culpa, pela tentativa de reviver o irrecuperável. O tempo presente, em contraste, é seco, frio e asséptico. As cenas das jovens no presente – filmadas com luz dura, sem música, desprovidas de artifício – expõem um real concreto e despojado de mediação em que o peso sensorial cede lugar à anestesia do cotidiano.

O modo como o destino do protagonista é revelado, por meio de uma fotografia em preto e branco no jornal, é de uma simplicidade devastadora. O gesto evoca tanto o desaparecimento do indivíduo como também o próprio apagamento da história, a transformação da vida em imagem indistinta.

O personagem de Wagner Moura, que até então habitava o espaço vibrante e saturado da lembrança, retorna ao seu estado original: o de uma imagem congelada, condenada à permanência fotográfica.

O filho, incapaz de recordar e relutante em falar sobre o pai, encarna a negação desse passado. A sequência final, em um ambiente hospitalar, reforça essa oposição entre tempos e modos de percepção.

O presente é mostrado como um mundo higienizado, impessoal, em que a vida se converte em estatística e o espaço perde sua espessura afetiva. Quando o filho diz que ali antes era um cinema, esse fato irrompe como uma epifania silenciosa.

A frase ecoa como confissão e como elegia. O Agente Secreto é menos um filme sobre a ditadura do que um filme sobre o ato de resistir ao apagamento. Nesse movimento, emergem as duas obsessões fundamentais de Kleber: o cinema e as pessoas, um tentando salvar o outro do esquecimento.