DE OLHOS BEM FECHADOS (1999): A Transgressão Impossível

Stanley Kubrick encena o desejo como um circuito fechado entre fantasia e controle social

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Após uma conversa aparentemente banal com sua esposa, o médico Bill Harford é lançado em uma jornada noturna que o conduz por um circuito oculto de desejos e rituais secretos na alta sociedade. À medida que se envolve em situações cada vez mais ambíguas e ameaçadoras, Bill confronta não apenas os limites de sua própria moralidade, mas também a instabilidade de sua vida conjugal e de sua identidade.

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O DESEJO E OS LIMITES DO EGO

Dentro da lógica dos indivíduos disciplinados e rigidamente moldados por sistemas de poder que atravessa a filmografia de Stanley Kubrick, De Olhos Bem Fechados apresenta Bill Harford não como um rebelde em potência, mas como um sujeito profundamente integrado à sua classe social.

Bill não deseja, de fato, subverter a ordem, ele apenas ensaia, por algumas noites, um deslocamento lateral dentro de limites que já estavam previamente demarcados e descobre, de maneira progressivamente humilhante, o quão estreito é esse espaço de manobra.

Bill é médico, mora em um amplo apartamento em Manhattan, atende pacientes ricos e circula com naturalidade em festas da elite nova-iorquina.

Seu casamento com Alice, ainda que atravesse conflitos latentes, funciona como um arranjo estável que sustenta sua identidade social: marido respeitável, pai de família e profissional bem-sucedido.

Não se trata apenas de um vínculo afetivo, mas de uma engrenagem simbólica que organiza seu lugar no mundo. A estabilidade conjugal é, ao mesmo tempo, uma forma de pertencimento e de reconhecimento social.

Quando Alice confessa ter desejado um marinheiro – e admite que, por um instante, teria sido capaz de abandonar tudo por um encontro fugaz com esse homem -, o abalo não se restringe à esfera da fidelidade conjugal.

O que entra em colapso é a ilusão de controle que Bill exerce sobre a realidade da esposa, sobre seus desejos, sobre seu corpo e, sobretudo, sobre a imagem que ele construiu de si mesmo como “homem suficiente”.

A revelação atinge diretamente seu narcisismo e sua crença tácita de que o casamento lhe garante uma posição de soberania simbólica.

A partir desse ponto, a deriva noturna de Bill assume a forma de um prolongado teste de ego. Cada encontro e cada deslocamento pela cidade funciona como uma tentativa de recompor uma virilidade ferida.

É como se ele precisasse provar, antes de tudo para si mesmo, que também é desejável, que também pode trair, que também é capaz de atravessar fronteiras – sejam elas sexuais, morais ou de classe.

Porém, essas tentativas nunca se convertem em verdadeira transgressões, mas se esgotam em gestos interrompidos e em portas que se fecham antes do acesso pleno.

Kubrick constrói essas situações de modo a evidenciar que existe uma estrutura maior, invisível e implacável, que constantemente recoloca Bill no seu devido lugar.

Quando ele se aproxima de uma prostituta, a cena parece encaminhar-se para um adultério quase banal, destituído de qualquer aura romântica.

No entanto, a interrupção do encontro e a revelação posterior de que ela está contaminada por HIV transformam essa possibilidade de transgressão em ameaça. O sexo fora do casamento surge, assim, como risco e punição potencial.

O mesmo se repete, de forma ainda mais contundente, quando Bill é introduzido à sociedade secreta que representa um estrato social superior ao seu. Ali, o filme abandona qualquer ambiguidade. Ele é rapidamente identificado como intruso, exposto, humilhado e, em seguida, intimidado por meio de ameaças cuidadosamente veladas.

Não há espaço para negociação ou assimilação gradual. A hierarquia se impõe de maneira brutal e deixa claro que aquele universo não lhe pertence.

Bill não é aceito naquele topo, mas tampouco consegue escapar da posição intermediária que ocupa. Ele está aprisionado em uma faixa muito específica de classe e Kubrick se empenha em tornar essa condição visível de forma concreta.

Essa faixa funciona como uma cerca: permite certa circulação, alguns desvios controlados, mas impede qualquer ruptura real.

O percurso noturno do protagonista revela-se um movimento circular que reafirma, a cada tentativa frustrada, os limites rígidos de sua posição social e simbólica.
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A DERIVA NOTURNA COMO LABIRINTO FECHADO

A própria estrutura narrativa do filme reforça de maneira rigorosa essa sensação de movimento ilusório que atravessa a experiência de Bill.

De Olhos Bem Fechados acompanha um intervalo relativamente curto – dois ou três dias na vida do casal Harford – com ênfase particular nas duas noites em que Bill vaga pela cidade após a confissão de Alice.

Essa delimitação temporal concentrada contribui para uma percepção de intensidade e urgência, como se algo decisivo estivesse prestes a acontecer, ainda que esse acontecimento jamais se realize plenamente.

Em um primeiro olhar, o filme pode parecer narrativamente “solto”. Bill caminha pela cidade, encontra pessoas, e cada encontro o conduz  a uma nova situação e a um novo ambiente social.

A progressão não se organiza segundo uma trajetória clara ou um objetivo definido, mas assume a forma de uma sucessão de episódios relativamente autônomos, ligados mais pela deriva do personagem do que por uma lógica clássica de causa e efeito.

Essa aparência episódica sugere uma liberdade de movimento que, à primeira vista, aproxima o filme de uma estrutura errante e quase improvisada.

Entretanto, à medida que o percurso se desenha, torna-se evidente que essa mobilidade é profundamente enganosa. Bill retorna reiteradamente a pontos semelhantes, como se estivesse condenado a refazer os mesmos caminhos.

Ele volta à mesma rua, ao mesmo clube de jazz, à mesma loja de fantasias; repete os trajetos de táxi, tenta revisitar os espaços associados à orgia, insiste em recuperar acessos que já lhe foram negados.

A cidade, embora vasta e complexa, se reduz para ele a um circuito limitado, a um labirinto composto por poucas ruas e variações mínimas.

Essa sensação paradoxal – de expansão espacial combinada a um estreitamento efetivo do percurso – é central para a experiência do espectador.

Como observa Nicolas Saada em texto publicado na Cahiers du Cinéma, existe um impulso quase hipnótico que nos convida a seguir Bill como se ele estivesse sendo conduzido por uma vontade própria, por um desejo íntimo e espontâneo.

Ao mesmo tempo, cresce a suspeita de que esse impulso responde a uma força mais abstrata e impessoal, uma engrenagem invisível que o mantém girando dentro de uma órbita muito precisa.

O movimento existe, mas é um movimento vigiado e contido que nunca rompe o perímetro estabelecido.

Kubrick constrói, assim, um filme que parece simultaneamente controlado e errante, rigoroso e flutuante – espelhando com precisão a condição subjetiva do protagonista.

Bill acredita estar tomando decisões impulsivas, guiado por reações imediatas e desejos momentâneos. Contudo, na prática, ele gira incessantemente em torno do mesmo eixo: o casamento, a posição de classe, o trauma provocado pela confissão de Alice.

A estrutura narrativa enfatiza formalmente esse giro sobre o próprio eixo e transforma a repetição em um princípio organizador que esvazia qualquer ilusão de progresso real.
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O THRILLER ERÓTICO COMO LÓGICA DE SONHO

O mecanismo de suspense hipnótico do longa, sustentado por uma lógica que frequentemente se aproxima do sonho, estabelece um diálogo evidente com o cinema de David Lynch.

O subgênero no qual De Olhos Bem Fechados se insere – um thriller erótico atravessado por uma investigação de tonalidade noir, contaminada pelo desejo – é um território que Lynch também explora de modo recorrente, ainda que deslocando essas convenções para uma dimensão mais explicitamente onírica e fragmentada.

Kubrick opera um movimento semelhante, mas à sua própria maneira. Em vez de dissolver a narrativa em rupturas radicais ou em paradoxos explícitos, ele preserva uma aparência de linearidade enquanto recusa explicações definitivas para certas motivações e ameaças.

O filme nunca esclarece plenamente a natureza da sociedade secreta, a extensão de seu poder ou o grau real de perigo que ela representa.

Essa ambiguidade deliberada se constrói a partir da combinação entre elementos reconhecíveis do cinema de gênero – conspiração, rituais clandestinos, perseguição velada – e uma atmosfera de paranoia constante na qual tudo parece carregado de sentido sem jamais se estabilizar em um significado único.

Ao longo do filme, diversos elementos visuais e sonoros – máscaras, espelhos, paletas cromáticas específicas, músicas que retornam como motivos obsessivos – adquirem progressivamente o estatuto de signos.

Kubrick parece instaurar uma gramática simbólica própria, cuidadosamente articulada, mas que se recusa a se fechar em uma chave interpretativa única.

Esses signos funcionam menos como símbolos decodificáveis e mais como dispositivos de inquietação que convocam o espectador a uma leitura instável, sempre provisória.

Essa abertura interpretativa, aliás, é um traço profundamente “lynchiano”, ainda que aqui submetido a um rigor formal e composicional característico de Kubrick.

A sequência da mansão representa o ponto culminante dessa lógica onírica. Desde o deslocamento até aquele espaço – a estrada noturna, o portão imponente, a senha sussurrada – até o ritual conduzido ao som de uma música litúrgica solene, tudo é encenado como se o filme nos conduzisse a um plano de realidade suspenso

A coreografia precisa dos participantes, a disposição dos corpos, o uso cerimonial das máscaras e, por fim, a “descoberta” de Bill e sua exposição pública compõem uma encenação quase sacramental.

Trata-se menos de uma representação direta de relações sociais do que de uma dramatização abstrata de forças de poder, desejo e humilhação que não se deixam traduzir facilmente em termos sociológicos imediatos.

O erotismo dessa sequência é deliberadamente frio e desprovido de afeto. Os gestos são impecavelmente coreografados, os corpos funcionam como superfícies anônimas e qualquer possibilidade de intimidade é sistematicamente esvaziada.

O sexo, nesse contexto, deixa de funcionar como experiência sensorial ou relacional e passa a existir como imagem. Uma imagem de promessa e, ao mesmo tempo, de impossibilidade. Não existe prazer pleno, apenas uma encenação distanciada do desejo.

Trata-se, em última instância, do desejo entendido como projeção. Um desejo que não se realiza, mas que se perpetua como fantasia, alimentando-se da própria frustração.

Esse erotismo insatisfeito dialoga diretamente com a fantasia masculina ferida do protagonista que tenta, de modo inconsciente, purgar o desejo não satisfeito da esposa por meio de imagens e rituais que jamais o incluem de fato.

Nesse sentido, o filme se aproxima de Estrada Perdida (1997) na medida em que ambos encenam o desejo masculino como um circuito fechado de projeções, paranoias e fantasias compensatórias, incapaz de produzir qualquer forma genuína de reparação ou entendimento.
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A IRREALIDADE LUMINOSA DO ESPAÇO URBANO

Esteticamente, trata-se talvez do filme mais explicitamente estilizado de Stanley Kubrick, ainda que essa estilização surja de elementos profundamente concretos e cotidianos.

Em De Olhos Bem Fechados, o desenho visual nasce de fontes práticas de iluminação – luzes de Natal, vitrines coloridas, lâmpadas domésticas, abajures e fachadas iluminadas – integradas de modo orgânico à decupagem.

Como a narrativa se passa durante o período natalino, Kubrick e o diretor de fotografia Larry Smith preenchem sistematicamente o fundo dos enquadramentos com pequenas fontes luminosas coloridas que criam uma paisagem visual pulsante e instável.

Por meio de um uso extremamente meticuloso do foco e de procedimentos de laboratório – em especial o push processing, que eleva o contraste e intensifica o grão da película – essas luzes adquirem uma textura quase difusa e por vezes alucinatória.

Essa qualidade visual dialoga diretamente com o estado mental de Bill. O protagonista atravessa a cidade, mas o mundo ao seu redor parece sempre ligeiramente desfocado, distorcido pela obsessão e pela ruminação contínua.

O resultado é uma convivência tensa entre um realismo espacial bastante concreto – apartamentos, ruas, consultórios – e uma sensação persistente de irrealidade luminosa, como se a própria matéria do espaço estivesse contaminada pela subjetividade do personagem.

Esse efeito é intensificado pelo fato de que muito pouco do filme foi rodado em Nova York de fato. A cidade foi amplamente reconstruída em estúdio, na Inglaterra, e essa decisão se faz sentir de maneira quase subliminar.

Existe algo de artificial no cenário: o desenho das ruas, a ausência de um horizonte reconhecível, o número relativamente restrito de lugares pelos quais Bill circula. No entanto, essa artificialidade não empobrece o filme. Ao contrário, reforça a sensação de alienação e de deslocamento do protagonista.

Como observa Kent Jones, uma Manhattan filmada de modo realista, com locações caóticas e excesso de estímulos, provavelmente diluiria esse clima de sonho urbano e de teatro noturno.

A Nova York de estúdio transforma os elementos urbanos em signos, mais do que em simples espaços de passagem.

A dimensão da atuação é crucial para o funcionamento do filme – talvez mais do que em qualquer outra obra de Kubrick -, já que grande parte da tensão dramática se concentra em diálogos longos e confissões íntimas.

O processo exaustivo de filmagem, frequentemente mencionado em relação ao método do diretor, se manifesta aqui de maneira particularmente produtiva. Os atores parecem constantemente à beira do desgaste, com uma tensão latente que atravessa seus gestos e olhares.

A decupagem desses diálogos, baseada em contraplanos rigorosos e no uso recorrente de closes, permite que Kubrick trabalhe, na montagem, microvariações de performance – algo ainda mais significativo se considerarmos sua prática de filmar inúmeros takes.

Essa estratégia constrói uma textura emocional densa e instável, na qual pequenas inflexões ganham peso dramático desproporcional.

A cena em que Nicole Kidman, sob efeito de drogas, alterna o riso desinibido com a explosão da confissão, é o exemplo mais evidente dessa abordagem.

Porém, momentos aparentemente secundários carregam um impacto semelhante, como a cena em que a personagem de Marie Richardson confessa ao personagem de Tom Cruise que estava apaixonada por ele.

O conteúdo da fala é, em si, bastante realista, mas a maneira como ela hesita, como o olhar oscila entre desejo e culpa, como a boca parece lutar para articular as palavras com tranquilidade, produz um excesso emocional intenso e quase desconfortável.

Essa cena, inclusive, antecipa de forma exemplar o tom do filme como um todo. Em um ambiente marcado pela morte – o pai da personagem acabara de falecer – emerge uma pulsão erótica e amorosa profundamente deslocada e contaminada pela culpa.
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O DESEJO REINTEGRADO AO SISTEMA

O desfecho do filme funciona como um retorno ambíguo à ordem. Ao mesmo tempo em que restabelece um equilíbrio aparente, reafirma de maneira contundente a impossibilidade de qualquer fuga real desse mesmo sistema.

Após ser seguido, advertido, ameaçado de forma velada e compelido a revisitar quase todos os espaços por onde passou, Bill retorna ao apartamento e decide narrar a Alice tudo o que viveu durante sua deriva noturna.

Esse gesto, que poderia sugerir uma catarse ou um esclarecimento final, é tratado pelo filme com extrema cautela.

Alice escuta, processa o relato e formula uma observação decisiva: talvez nunca seja possível saber até que ponto aquelas experiências foram “reais” ou apenas fantasias – tanto as fantasias vividas por Bill quanto aquelas que ela própria imaginou.

A dúvida não é apresentada como um problema a ser resolvido, mas como uma condição permanente. Em vez de exigir uma verdade objetiva, Alice desloca a questão para um plano existencial e pragmático ao afirmar que, apesar de tudo, eles devem ser gratos por terem sobrevivido.

A sobrevivência, aqui, aparece como valor máximo, superior a qualquer pretensão de revelação ou transcendência.

Quando Bill pergunta o que eles devem fazer diante desse aprendizado, a resposta de Alice – simples e quase desconcertante – é “transar”. Esse gesto final reinscreve o desejo e a fantasia dentro do espaço conjugal.

Em vez de negar o desejo, reprimi-lo ou fingir que ele não existe, Alice propõe incorporá-lo ao vínculo que já os define socialmente. O sexo surge como mecanismo de acomodação, comno uma forma de manter o desejo em circulação sem permitir que ele ameace a estrutura que sustenta suas identidades.

Essa reconciliação, porém, está longe de ser redentora. O filme não sugere que Bill tenha aprendido uma lição libertadora ou alcançado uma forma superior de consciência. Ao contrário, o que se impõe é a constatação dos limites.

Bill tentou atravessar fronteiras de classe e de desejo, flertou com forças que não compreende nem controla e esbarrou em uma hierarquia muito mais poderosa do que ele.

Descobriu que existe risco demais em se aproximar de realidades que operam acima de sua posição social, e fragilidade demais em sua própria identidade para sustentar qualquer gesto de transgressão prolongada.

A única segurança possível, ao final, é o retorno ao interior do sistema: ao casamento, à profissão, ao apartamento protegido por luzes de Natal.

Kubrick não apresenta esse retorno como uma escolha plenamente consciente ou moralmente elevada, mas como uma necessidade prática, quase biológica.

A liberdade de Bill – se é que ela existe – só pode se manifestar nesse espaço estreito e paradoxal, situado entre aquilo que se vive concretamente e aquilo que apenas se sonha.

O filme encerra-se, assim, com a aceitação melancólica de que o desejo e o controle coexistem em um equilíbrio instável, sempre à beira de se romper, mas nunca de fato superado.

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