HORIZON: UMA SAGA AMERICANA – CAPÍTULO 1 (2024): A essência do épico

Kevin Costner reverencia convenções do western com abordagem sóbria

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Horizon: Uma Saga Americana – Capítulo 1 (2024) se passa um pouco antes e durante a Guerra Civil Americana e retrata diversos núcleos que acompanham a expansão dos americanos no oeste do país. A narrativa explora os perigos, intrigas, dramas e desafios inerentes àquele período histórico.

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FILIAÇÃO CLÁSSICA

O que mais chama a atenção nesse projeto de Kevin Costner é a sua filiação a uma dimensão clássica do cinema. Além de ser um grande épico, uma saga em quatro partes, Horizon pertence a um dos gêneros mais tradicionais que existem: o western.

A grande questão é que o filme não apenas vende a imagem de querer ser clássico, mas de fato utiliza uma linguagem clássica de maneira precisa, evitando qualquer excesso estilístico.

O longa não faz um plano-sequência apenas por fazer, não deixa metade de um enquadramento desfocado só porque é bonito, nem satura as cores para soar mais impactante. Ele é bastante contido e rigoroso em termos estéticos ao seguir certas convenções.

Até o fato de o diretor não ter utilizado a janela Cinemascope reforça essa busca por uma estética mais equilibrada. O longa adota uma janela 1.85, um formato widescreen menos largo, e os enquadramentos mostram o essencial, sem qualquer perfumaria excessiva.

Mesmo o modo como o filme emprega, por exemplo, a montagem alternada na cena do massacre do início remete a um cineasta como D.W. Griffith. Não é uma cena que abusa da montagem alternada, nem recorre a cortes excessivamente rápidos ou dinâmicos. Ela se concentra nos aspectos mais básicos dessa transição de perspectiva, entre quem está dentro da casa, quem está lá fora morrendo e quem está fugindo.

Outro grande exemplo dessa assertividade clássica é a cena em que o personagem de Kevin Costner mata o personagem de Jamie Campbell Bower.

O suspense construído até as trocas de tiros é muito sutil e exibe apenas o necessário. Até mesmo o momento do tiroteio em si, o duelo entre os dois, não é exageradamente dramático. É uma cena direta, que lembra alguns duelos objetivos dos filmes de Howard Hawks.

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ABORDAGEM CONTEMPORÂNEA

Apesar de todo o rigor clássico, Horizon possui, inevitavelmente, uma estética contemporânea. Afinal, quando um cineasta faz um western hoje, por mais clássico que seja seu estilo, ele estará fazendo, inevitavelmente, um filme sobre o western.

Não podemos negar que o gênero perdeu sua inocência após sua fase mais clássica, nos anos 40 e 50. Nesse sentido, praticamente todo western produzido depois dessa época já é, de certa forma, revisionista, pois evidencia uma autoconsciência do gênero.

Assim, devido a esse contexto histórico, o filme necessariamente terá um aspecto nostálgico, simplesmente porque foi realizado nos dias de hoje.

Além disso, sempre que um cineasta se propõe a recriar um ambiente do século XIX nos tempos atuais, esse ambiente inevitavelmente terá uma abordagem contemporânea. Os materiais dos cenários são diferentes, a iluminação artificial é outra — tudo isso afeta o efeito final da imagem.

Outro elemento que evidencia a abordagem contemporânea do filme é a fotografia digital. O longa foi gravado em formato digital, e não em película.

Geralmente, cineastas mais puristas, como Christopher Nolan, Quentin Tarantino e Paul Thomas Anderson, preferem filmar em película justamente para que a imagem tenha uma textura difusa e clássica do 35 mm, em vez de uma nitidez “falsa” do digital.

Provavelmente, se Costner tivesse mais recursos, teria optado por filmar em película. No entanto, o cineasta gravou em digital e, inclusive, utilizou uma câmera da Red, cujo sensor ressalta ainda mais a textura cristalina desse formato.

Foi uma escolha interessante, pois o diretor não tenta simular a textura da película. Ele e seu diretor de fotografia assumem a estética digital e até se beneficiam dessa tecnologia.

O fotógrafo do filme, James Muro, já comentou sobre o sensor da câmera Red, modelo V-Raptor, destacando como ele capta muito bem os tons de pele—algo bastante explorado nos closes do filme.

Além disso, Muro utilizou um jogo de lentes prime da Leica, o Summilux-C, conhecidas por captar imagens e cores com extrema fidelidade. Essa escolha reforça a abordagem clássica dentro da estética digital adotada pelo filme.

Ou seja, o longa concilia escolhas estéticas tradicionais com características da fotografia digital que realçam elementos naturais em cena. O resultado é um filme visualmente sofisticado, mas sem excessos.

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OS NÚCLEOS DO FILME

Horizon: Uma Saga Americana – Capítulo 1 (2024) apresenta uma estrutura relativamente arriscada, ao se dividir em vários núcleos distintos, que possuem certa independência.

No entanto, isso funciona muito bem porque, além de cada núcleo ter sua própria complexidade dramatúrgica e um tema específico, essa variação confere à obra um aspecto emocional muito particular.

É justamente essa estrutura que permite ao filme explorar diversos aspectos do contexto retratado, proporcionando uma gama mais ampla de emoções. Algumas pessoas criticaram essa abordagem, afirmando que a narrativa se assemelha a uma série ou que, talvez, o filme devesse ter sido desenvolvido nesse formato.

Porém, é importante perceber que o efeito épico do longa reside exatamente na experiência de assisti-lo por três horas seguidas. O espectador é impactado pela alternância e evolução contínua desses núcleos ao longo da projeção.

O impacto de um filme épico surge desse acúmulo de eventos e emoções. Em uma série, com episódios de 40 minutos, esse efeito não seria o mesmo.

Neste primeiro capítulo da saga, alguns núcleos podem parecer menos desenvolvidos, mas, considerando que se trata apenas do início, é natural que certos segmentos ainda não sejam tão fortes quanto outros. Ainda assim, cada um deles apresenta elementos específicos e aborda diferentes facetas daquele contexto de maneira particular.