ZEROS AND ONES (2021): Distopia do presente

A partir de fascinação por imagens do presente, Abel Ferrara trabalha com diferentes níveis de realidade

*

Neste thriller experimental dirigido por Abel Ferrara, um soldado vivido por Ethan Hawke viaja até Roma para evitar um possível atentado terrorista. Durante sua estadia na cidade, o protagonista também procura pelo seu irmão, um revolucionário que pode ter informações sobre essa ameaça

Zeros and Ones é um filme que prioriza um engajamento sensorial por parte do espectador. Ainda que exista uma premissa narrativa, o longa se utiliza dela muito mais como uma desculpa para construir imagens e situações que exploram os mistérios das suas circunstâncias.

Mistérios que nunca são resolvidos (em certo momento, é até difícil acompanhar o que de fato está acontecendo no filme) e exploram uma jornada audiovisual de fascinação que remete até mesmo a fantasia distópica de um filme como Enigma do Poder (1998).

Porém o que no filme de 1998 era um imaginário distante, aqui se comporta como a premissa de uma realidade presente. Principalmente pela forma que o filme usa a pandemia para passar a sensação de uma distopia contemporânea.

Nesse sentido, o cineasta romantiza a realidade à sua volta na medida certa. Usa muito bem o trabalho do Sean Price Williams na fotografia para deixar as imagens em um equilíbrio entre algo mais cru (a câmera na mão, a falta de iluminação) e algo onírico (o slow motion, a textura ruidosa das imagens em baixa resolução).

A partir dessa abordagem documental que mostra os seus espaços como um ambiente desabitado na iminência de um ataque, tudo soa como o vestígio de um mundo que nunca assimilamos como um todo.

O cineasta parte de premissas narrativas concretas e de uma caracterização realista que dialoga com a pandemia, mas aborda tudo como se fosse uma confusão entre regimes de imagens e histórias. Mesmo a forma como mistura e duplica os elementos da trama ajuda nessa confusão.

O personagem do Ethan Hawke procura pelo seu irmão ao mesmo tempo que se confunde com ele. As telas mostram imagens captadas por pessoas em cena para, depois, se tornarem sequências decupadas do próprio filme.

Apesar de, teoricamente, filmar um thriller atual, Ferrara nunca coloca a imagem como algo confiável. A imagem está sempre tateando uma possível realidade que, ironicamente, parece até pertencer a outro tempo (o espaço urbano de Roma como pano de fundo é perfeito para essa ambiguidade).

O modo como o Ethan Hawke abre e fecha o filme como ele mesmo, olhando para a câmera e conversando com o espectador, também dialoga muito bem com isso. O filme adiciona mais uma camada de realidade nessa aparição inusitada; dessa vez, em teoria, totalmente legítima, para fechar com a frase do Hawke dizendo que aquilo também faz parte da obra.

Mesmo que toda essas relações híbridas entre ficção e documentário estejam na moda no cinema, ou pelo menos já estiveram recentemente, é incrível como um grande cineasta consegue partir de pouquíssimos elementos pra construir uma obra que não remete apenas a essa tendência, mas a toda uma gama de elementos básicos do gênero do thriller que vão sendo meramente pinçados e nunca totalmente resolvidos.

O diretor trabalha com um mistério apenas aparente desses elementos do thriller para, depois, abandoná-los. Em Zeros and Ones, toda ação é uma sugestão de uma trama que nunca acontece e toda imagem é o eco dessa irresolução.

Em um primeiro momento, o espectador até pode se sentir frustrado por nunca assimilar narrativamente a obra como um todo, mas a gratificação que a experiência audiovisual oferece por ela mesma é insuperável.