REBUILD OF EVANGELION (2007 – 2021): Brutalidade lírica

Hideaki Anno propõe uma versão mais dinâmica de Evangelion,
mas preserva a sutileza dramática da série original


Neon Genesis Evangelion
foi uma série de animação japonesa lançada entre 1995 e 1996. Tendo como principal mentor o animador e cineasta Hideaki Anno, Evangelion se tornou um dos animes mais icônicos de toda a história.

Apesar da série se filiar ao gênero mecha, uma vertente bastante tradicional de obras e produtos de entretenimento envolvendo robôs gigantes que, em vários casos, são controlados por pessoas, Evangelion foi marcante por sua complexidade dramática e experimentações formais.

Rebuild of Evangelion é uma série de 4 filmes, lançada entre 2007 e 2021, que tem como objetivo recontar a história do anime. Apesar dos filmes começarem de modo muito semelhante aos episódios da série, no fim das contas o Rebuild funciona como uma obra alternativa que parte da mesma premissa. 

Além de propor uma resolução alternativa, os filmes possuem aspectos estilísticos mais sofisticados e contemporâneos. O que faz dos trabalhos um dos ápices da carreira de Hideaki Anno.


EVANGELION: 1.11 VOCÊ (NÃO) ESTÁ SOZINHO (2007)

O primeiro filme, lançado em 2007, é um dos mais fiéis ao anime. O trabalho reconta o início da narrativa com um ritmo mais rápido. Porém, mesmo sendo tão semelhante aos acontecimentos originais, o modo como o diretor integra essa velocidade na trama possui um tom poético muito expressivo.

O filme, de alguma forma, se apropria da maneira em que alguns flashbacks mais misteriosos eram exibidos na série original para narrar os eventos correntes. Logo, mesmo algumas cenas do presente são apresentadas como uma espécie de vislumbre. 

Em uma análise rápida, o trabalho pode até soar como uma mera repetição narcisista dos primeiros episódios, pois em teoria simplesmente repete as coisas e torna a construção visual mais rica, mas me parece que funciona, também, como uma espécie de sonho que reconta os fatos. Uma narrativa mais livre que se aproveita muito bem desses retalhos de acontecimentos.

Como tudo é mais apressado, os aspectos mais cotidianos se transformam em fragmentos poéticos (desde as cenas na escola aos momentos mais intimistas de Shinji) e os aspectos mais épicos (as lutas) se tornam mais grandiosos. Como o diretor precisa nos impactar em menos tempo, existe essa elaboração sensorial que se reinventa com mais velocidade. 

Tudo isso, curiosamente, torna o personagem do Shinji mais instável do que, exatamente, melancólico. Uma vez que não existe toda a enrolação nas suas choradeiras, o protagonista toma decisões mais abruptas. De alguma forma até parece mais ligado a um instinto de sobrevivência e responsabilidade e menos ao seus próprios devaneios.

Até mesmo a relação de Shinji com Rei parece que se foca um pouco mais nessa noção de responsabilidade. Rei é colocada como uma espécie de gatilho que dispara essa sensação de dever (e até de moral em certo aspecto). Coisa que já existia na série, mas que aqui é mais central. 

De modo geral, o filme todo é mais “bipolar”, já que vai de uma coisa para outra sem muita cerimônia. O diretor até poderia ir para um lado um pouco mais didático (ainda mais pela confusão que a série ainda causa em boa parte da audiência), mas se mostra interessado em tornar a mitologia de tudo ainda mais caótica.

A caracterização dos espaços também reforça isso. O modo como o filme deixa alguns ambientes mais detalhados e estilisticamente mais ricos nunca faz com o que os espaços se tornem mais compreensíveis, e sim mais misteriosos.

A reunião de Gendo com o Seele é um bom exemplo. Apesar dos detalhes em hebraico estarem mais explícitos, a disposição dos elementos em cena conserva um tom minimalista e enigmático

Evangelion: 1.11 Você (Não) Está Sozinho é um filme que lida muito bem com esse aspecto sensorial e objetivo dos seus elementos justamente por não fazer muita concessão entre essas duas dimensões. 

É um longa que pode até soar muito mais objetivo e quem sabe ilustrativo para alguns (ainda mais nesse primeiro momento de contextualização), mas usa muito bem as premissas dos acontecimentos narrativos para jogar com as suas sensações a partir de um ritmo estimulante.


EVANGELION: 2.22 VOCÊ (NÃO) PODE AVANÇAR (2009)

Diferente do longa anterior, Evangelion: 2.22 Você (Não) Pode Avançar depende narrativamente bem menos da série. O que, inclusive, dá o tom para os próximos longas do Rebuild.

É interessante como o filme recusa até mesmo uma carga emocional da série – ou, pelo menos, recusa um excesso emocional e melodramático mais evidente que os personagens possuíam – porém, ao mesmo tempo, direciona isso para uma abordagem estilisticamente mais exagerada.

É como se o diretor pegasse o que antes era muito mais internalizado em seus protagonistas (e que definitivamente tinha os seus próprios apelos ao fazer isso nos episódios originais) e colocasse aqui de modo mais direto e gráfico.

Não existem, por exemplo, tantos momentos contemplativos ou de reflexão, já que os protagonistas precisam lidar com as crises e os eventos dramáticos na hora, consequentemente precisam reagir a tudo de modo mais instintivo. 

Devido a isso, essa talvez seja a obra que melhor lida com uma relação entre a delicadeza e o brutal que, até certo ponto, é bem característica de Hideaki Anno.

O diretor faz cenas de batalhas bastante dinâmicas e visualmente expressivas com um toque lírico muito específico. O modo como usa músicas que priorizam muito mais a delicadeza do vocal nas cenas mais intensas, por exemplo, reforça isso muito bem.

E ainda que a narrativa torne os personagens mais “maduros” nesse seu tom direto (são crianças que, literalmente, precisam resolver as coisas o mais rápido possível), todo o drama preserva a ingenuidade dos protagonistas. Shinji está mais esperto, porém continua refém dos seus traumas mais básicos. 

Em uma comparação mais direta com a série, confesso que senti falta dos aspectos mais sombrios envolvendo a personalidade de Asuka. De toda forma, o modo como a narrativa continua se centralizando nas questões entre Shinji e Rei se adequa bem a essa abordagem mais direta ao ponto. 

Mesmo o modo como as coisas transcendem via crises de pré-adolescente é algo que remete a uma essência mais inocente da série. É uma narrativa que evidencia essa infantilidade mais “ordinária” (tanto o seu lado histérico como melancólico) ao mesmo tempo que impulsiona os seus eventos extraordinários a partir disso. Shinji é um incel fracassado quando se isola, mas transcende os limites humanos quando é contrariado. 

Nesse sentido, esse é um dos trabalhos que melhor sintetiza a essência da série inteira. E ainda faz isso de modo muito pungente e relativamente econômico. Anno nunca tenta se vangloriar do próprio imaginário (até descarta algumas coisas que agradavam os fãs da série) e se foca em algo muito mais imediato.


EVANGELION 3.33: VOCÊ (NÃO) PODE REFAZER (2012)

O terceiro filme funciona como uma espécie de antítese de The End of Evangelion (1997), longa-metragem lançado depois do final da série que, apesar de propor uma linha narrativa possivelmente mais clara do que os episódios finais, ainda conserva um tom abstrato.

Enquanto The End of Evangelion (1997) era um relato épico do terceiro impacto, Evangelion 3.33 funciona como uma continuação alternativa e mais reflexiva de um “quase” terceiro impacto

O que era mais grandioso no filme de 1997, aqui é mais sereno. É uma obra mais sobre o resultado da destruição do que sobre a destruição propriamente. E de alguma forma lida com o aspecto “burocrático” disso tudo. 

Em Shin Godzilla (2016), longa-metragem de Hideaki Anno sobre o icônico monstro japonês, o cineasta evidencia muito bem o papel de uma certa máquina institucional frente uma ameaça, mostra os diversos braços do governo e coloca o estado como essa espécie de monstrengo complexo de elementos próprios. 

A base do conflito, aqui, é muito mais sobre a intenção dessas organizações da trama (Nerv, Seele, Wille) do que sobre uma luta contra o desconhecido propriamente. Ou, de certa forma, é um filme sobre como uma organização (tanto no seu sentido literal de um grupo de pessoas como no seu sentido institucional de uma sigla) deve ser responsável pelo futuro metafísico do planeta. 

De modo geral, tudo o que antes era pessoal se mostra apenas como o elemento de um plano de alguma entidade. O que envolve não só a revelação sobre Rei, mas até mesmo a natureza ambígua e, em certo sentido, “funcional”, do Kaworu Nagisa.

Até mesmo Asuka e Misato incorporam de vez essa ideia de uma máquina de guerra impessoal. Não são mais pessoas, são braços de uma organização. 

O único traço de humanidade – consequentemente de fraqueza – vem do Shinji. Ele é a última “criança”. Tem seus melhores momentos com um amigo que não é humano (como crianças tem com amigos imaginários), o lugar da mãe está vazio (o vínculo com o paraíso nunca foi estabelecido se pensarmos numa abordagem Junguiana) e o pai é o próprio arquétipo do Imperador.

Shinji sempre volta à estaca zero. É a carta zero do tarô (O Louco), está sempre iniciando uma jornada que ao mesmo tempo que não leva a nada (o personagem é patologicamente o mesmo desde o início) vai causando pequenos apocalipses no seu caminho. 

Estilisticamente falando, a primeira cena é das melhores cenas de ação da carreira de Anno. Não só pela expressividade gráfica que herda muita coisa do segundo filme, mas em como a “câmera” se integra no espaço físico. Seja nos movimentos mais nervosos das batalhas ou nos momentos mais contemplativos – só aquele plano sequência inicial já é uma aula pra muita gente.


EVANGELION: 3.0+1.01 A ESPERANÇA (2021)

Apesar desse último filme propor uma resolução fraca para a narrativa, a construção psicológica equilibra a complexidade dos traumas dos personagens com uma sutileza do cotidiano.

A primeira parte longa, ambientada em uma aldeia com sobreviventes do quase terceiro impacto, é basicamente das melhores coisas produzidas em todo o o cinema nos últimos 30 anos. Hideaki Anno consegue evidenciar um aspecto divino em ações cotidianas “ordinárias” como poucos diretores. 

O filme usa muito bem a figura de Rei para mostrar um cotidiano com elementos comuns e cíclicos (trabalho, família, descanso, comida), mas que justamente nessa repetição e dedicação comunitária expressa uma perspectiva sagrada da vida acontecendo. 

Mesmo a forma como Rei deseja ser batizada reforça um aspecto dessa sua “conversão”. Como se ela descobrisse um sentido apenas naquelas simples ações de segurar uma criança, plantar arroz, estar perto do garoto que ela gosta (antes de “morrer” deixa isso claro).

A obra consegue manifestar uma concepção quase bíblica de paraíso naquele espaço e nesses momentos de descoberta. E o melhor de tudo é como consegue fazer isso a partir de ações práticas desse dia a dia. Tudo de exagerado que a série faz pra evidenciar alguns momentos de transcendência, aqui Anno faz da forma mais natural possível.

Essa abordagem que se expressa mais pelas pequenas ações e gestos do que por um discurso mais direto remete, até mesmo, ao cinema clássico japonês de Yasujiro Ozu e Mikio Naruse.

Até o modo como o diretor decupa as cenas internas com planos mais próximos reitera a isso. Só se utiliza de planos realmente bem abertos quando mostra as instalações abandonadas da NERV.

Inclusive a decupagem da “morte” da Rei é quase bressoniana na marcação dos passos da personagem. Ela anda pra trás de modo bem mecânico enquanto os planos fixos vão ficando mais fechados e nunca se abalam pelo que acontece. Definitivamente dos momentos mais poderosos de todos os filmes.

Em relação ao final, eu gosto como o filme vai desconstruindo sua narrativa ao mesmo tempo que desconstrói sua forma. Coisa que o Anno parece repetir em todos os finais que produz, sendo o da série o mais extremo nesse sentido.

O modo como coloca os estúdios do que parece ser um palco para motion capture do próprio filme com os personagens encarnados ali foi uma sacada muito boa. Não é uma metalinguagem vaidosa e clichê, mas de fato explora o espaço e o próprio processo como mais um lugar de enigma que faz parte daquele imaginário.

Não acredito que a “sessão de terapia” entre Gendo e Shinji realmente funcione. Diria até que é uma resolução fácil. Não tanto pelo fato do diretor propor um final positivo, mas pelo modo aleatório que isso acontece. Soa como uma carta tirada da manga para fechar a trama. Um truque sem muita personalidade.

Nesse sentido, até prefiro o final do  The End of Evangelion (1997)  em que a patologia não resolvida do Shinji causa o cataclisma. Ali sim me parece o ápice até mesmo das questões mais junguianas da franquia (todo o aspecto da psique é um reflexo de uma estrutura metafísica maior que rege tudo). Enquanto que, agora, tenho a sensação de um final simplista com uma vibe autoajuda.

Felizmente isso não afeta a qualidade do filme como um todo, até porque o seu primeiro ato é impressionante e o diretor sabe conservar muito bem todo o peso dramático dos longas anteriores. 

Pensando nesses filmes como um todo, o saldo é extremamente positivo. Além de equilibrar muito bem os momentos mais experimentais com os acontecimentos objetivos da trama, Hideaki Anno propõe uma visão mais dinâmica que preserva a sutileza dramática da série original.