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O que é UNIDADE ESTILÍSTICA?

Ao analisar um filme, é normal pensarmos em seus elementos de forma isolada. Pensamos sobre o estilo da fotografia, sobre o ritmo da montagem, sobre o tom da atuação dos atores e atrizes, e assim por diante.

Porém não devemos parar por aí. Todas as escolhas estilísticas isoladas de um filme, na verdade, respondem a uma unidade estilística, a uma ideia central que corresponde ao efeito cinematográfico do trabalho.

Os elementos isolados da obra devem, cada um ao seu modo, refletir essas escolhas. Estes elementos, juntos, são responsáveis pelo impacto do filme.
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A MISE-EN-SCÈNE

Vários teóricos chamam essa ideia central de mise-en-scène. Um termo francês herdado do teatro que significaria a forma específica que cada diretor decide encenar o roteiro. O diretor tem uma ideia de encenação audiovisual e, a partir dessa ideia, faz escolhas estilísticas de linguagem para concretizá-la.

Dependendo da referência ou autor, a definição de mise-en-scène pode mudar. Alguns autores, por exemplo, consideram que a montagem é parte da mise-en-scène e outros não.

Tudo que o Céu Permite (1955)

Em seu livro Mise en Scène and Film Style, o crítico australiano Adrian Martin comenta sobre uma certa impossibilidade de se definir o termo por completo, devido a essa variedade de interpretações. 

Na minha experiência como professor, percebi que vários alunos se confundiam com o significado da palavra mise-en-scène justamente devido a essa variedade de definições. Por isso, durante minhas aulas, decidi adotar o termo unidade estilística

Unidade estilística significa o mesmo que mise-en-scène. É, na verdade, a minha definição desse termo. Uma definição mais direta e autoexplicativa que eu encontrei para que a ideia fosse assimilada de modo mais fácil e direto.


A FUNÇÃO DA UNIDADE ESTILÍSTICA

A unidade estilística do filme, portanto, é a forma como o diretor amarra todos os elementos da linguagem do cinema (fotografia, montagem, tom da atuação, direção de arte e cenários, etc) em apenas uma visão. É quando todos esses elementos juntos estão tão equilibrados que existe um efeito total.

Hiroshima, Meu Amor (1959)

Se a fotografia de um  filme sugere uma atmosfera específica, isso não está ali de graça. Nenhum elemento é colocado de forma aleatória. Todos conversam entre si. Todos os elementos respondem a essa unidade.

Cada filme é organizado estilisticamente da forma como o diretor quer se expressar. Cada filme tem a sua própria unidade estilística. A unidade estilística, em última análise, define o olhar do diretor sobre a história que conta.

Vamos pensar em alguns exemplos:


PERSONA (1966)

Persona, do diretor Ingmar Bergman, é um filme que explora o conceito de persona, que segundo a psicologia é a personalidade que o indivíduo cria de si para o mundo externo, uma “máscara” que não corresponde a quem ele de fato é.

A personagem de Liv Ullmann, no longa,  é uma atriz que fica muda sem motivo aparente. Já a personagem de Bibi Andersson é uma enfermeira que tem como função ajudar e fazer companhia para essa atriz.

Persona (1966)

Durante todo o filme, a personagem de Ullmann possui uma falta de expressão, como se ela se escondesse do mundo. A forma como a atriz se manifesta, portanto, é uma característica que envolve o efeito que o diretor quer passar: o mistério sobre quem na realidade é essa personagem.

O tom da atuação, a forma como Liv Ullmann “se apaga”, é uma escolha estilística de Ingmar Bergman que a atriz soube concretizar com muito talento.

Se pensarmos nos cenários e locações do longa, percebemos que são espaços vazios e crus. O quarto de hospital tem poucos móveis. A ilha em que as personagens passam uma temporada tem um aspecto rústico e impessoal. Não parece um lugar, exatamente, paradisíaco, mas um ambiente sem vida e sem identidade.

Persona (1966)

Ou seja, podemos perceber, novamente, essa ideia de uma inexpressividade também nos cenários e locações. Os cenários nunca revelam nada sobre aquele ambiente, nunca revelam nada sobre as personagens. 

Bergman, em sua decupagem, utiliza planos fixos de forma rigorosa como se aprisionasse suas personagens nos espaços. Como se as personagens não tivessem liberdade para se movimentar e se expressar livremente. Os planos confinam aqueles corpos de modo até mesmo claustrofóbico. 

A visão de Bergman sobre o tema abordado preserva o mistério do conceito de persona. A unidade estilística do filme organiza os elementos estilísticos (atuação, cenários, decupagem) para atingir esse efeito que reforça esse lado inexpressivo e cria um enigma sobre a verdade personalidade e intenção daquelas mulheres.


AMOR À FLOR DA PELE (2000)

Amor à Flor da Pele, de Wong Kar-Wai, mostra um casal que se apaixona e que não pode concretizar o amor que sentem um pelo outro. É um filme com uma linguagem audiovisual muito rica. Possui elementos isolados muito belos e dramáticos, como a fotografia, os enquadramentos complexos, o uso de cores vibrantes, a trilha sonora dramática, os cenários e os figurinos intensos.

Apesar do filme possui essa caracterização vibrante, a perspectiva de Wong Kar-Wai sobre essa história é desoladora e melancólica. Tais elementos, isolados, são intensos, porém a forma em que o diretor amarra todos eles é até mesmo angustiante.

Amor à Flor da Pele (2000)

Na unidade estilística de Wong Kar-Wai estes elementos não irão, exatamente, refletir o estado emocional dos personagens. Os elementos vão oprimir os personagens.

A fotografia, se analisada de maneira isolada, é bonita. Porém, dentro da unidade estilística, ela é articulada a partir de uma forma que oprime os personagens. A forma como Wong Kar-Wai, por exemplo, dispõe seus personagens no espaço da cena passa uma sensação de que os cenários estão engolindo os personagens. Uma sensação de que os cenários estão aprisionando aquelas pessoas.

Amor à Flor da Pele (2000)

Elementos visualmente prazerosos, como as cores, luzes, imagens desfocadas e slow motion, não devem ser analisados individualmente em uma obra. Precisamos compreender como esse elemento se integra no contexto formal do filme como um todo, como esse elemento se comporta dentro da unidade estilística.
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A EXPERIÊNCIA DO FILME ESTÁ NA UNIDADE ESTILÍSTICA

Se você quiser ser um diretor ou crítico de cinema, é extremamente importante que entenda a maneira que os elementos da linguagem do cinema dialogam entre si, a maneira em que esses elementos, juntos, respondem a uma ideia.

A “mensagem” de um filme não está necessariamente no roteiro, mas sim na unidade estilística, nas escolhas estilísticas que o diretor articula ao contar aquela história.

Persona (1966)

É claro que o termo mensagem é muito relativo, já que em vários casos um filme não deseja expressar uma ideia de modo objetivo. Porém o seu impacto com a obra, a sua interpretação do filme, a sua experiência subjetiva está mais relacionada ao modo que um diretor conta uma história do que a história propriamente. 

A experiência de um filme está na sua unidade estilística. Ao estudar os elementos da linguagem do cinema, você desenvolve a sua sensibilidade e é capaz de perceber quais escolhas de linguagem foram responsáveis por esse impacto. 

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