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Liga da Justiça de Zack Snyder (2021): Estética da Adoração

Zack Snyder integra ideias de divindade na concepção estética e dramática de seu filme

Liga da Justiça de Zack Snyder (2021) é a versão do diretor do mesmo longa já lançado em 2017. Apesar de Zack Snyder ter gravado o filme original, ele foi finalizado por Joss Whedon após Snyder se desligar do projeto durante a pós-produção.

Whedon, seguindo as indicações do estúdio e, de certa forma, sendo fiel ao seu próprio estilo, deixou o filme mais leve, colorido e integrou um humor à narrativa. 

Nesta versão final, Snyder faz jus a toda sua liberdade criativa e nos apresenta uma obra de 4 horas. Ainda que, em um primeiro momento, tudo o que envolva essa versão (incluindo essa duração) possa  soar como mero capricho do cineasta, o filme é o melhor de sua carreira até agora.
Ou, pelo menos, me parece ser o primeiro que realmente concretiza algo que ele já buscava em outros filmes. O diretor parte do imaginário dos quadrinhos para integrar uma ideia de divindade na concepção estética e conceitual da obra. 

Se em seus filmes anteriores já era possível perceber essa possibilidade, principalmente em um tom mais solene nas suas escolhas dramáticas e estilísticas, isso acabava se perdendo em um fetiche estético que buscava uma aura de importância forçada em momentos mais específicos.

Já em Liga da Justiça (2021) a solenidade parece muito melhor diluída na narrativa como um todo. Mais do que isso, existe uma atmosfera mística mais sutil que perpassa as cenas.

Talvez justamente por sua longa duração, o cineasta tem mais tempo de explorar aspectos mais sutis desse pensamento.  Snyder não tenta, exatamente, fazer um filme de 4 horas, mas segue uma lógica de série de TV que dá o devido tempo a cada um dos seus núcleos.

 Além da divisão por capítulos que reforça essa lógica seriada, a descentralização da trama (os núcleos mais desenvolvidos) preparam melhor o terreno para as resoluções finais.
O longa não faz apenas um grande arco dramático, mas vai resolvendo as situações aos poucos e apresentando cada coisa gradualmente. Até o possível protagonismo de Ben Affleck fica mais ambíguo nessa nova versão.

Essa maior “diluição” da história torna até mais dinâmico esse elenco pouco expressivo.  Como não existem grandes atores ou atrizes aqui, o fato do filme ir sempre pulando de um personagem para outro faz com que tudo flua melhor. 

É como se no fundo o diretor soubesse dos limites desse elenco inegavelmente fraco, se focasse apenas nos diálogos essenciais e o resto resolvesse com as imagens.

Até as piadinhas são minimizadas o máximo que podem, principalmente se compararmos com a versão de Whedon. Elas existem, mas o tom do filme nunca muda ou se submete a elas. 

No fim das contas Liga da Justiça é um filme longo mas, ao mesmo tempo, direto no modo em que resolve as suas situações. Ironicamente é um dos filmes mais econômicos de Snyder.
Não abusa tanto das suas concepções estéticas megalomaníacas e usa o slow motion de forma mais pontual nas cenas de ação. Ou, quando abusa, é justamente para assumir uma cafonice mais espirituosa (o uso das músicas, as salsichas voadoras em cgi).

Talvez até mesmo a janela 4×3 tenha segurado um pouco o cineasta nesse sentido. Snyder não encontra tantas possibilidades de estilizar as coisas de modo exagerado nas composições e, consequentemente, acaba sendo mais objetivo no geral, ainda que mantendo o tom grandioso da caracterização de tudo. 

Um tom grandioso que não se baseia meramente em caras e bocas (como eram os filmes anteriores), mas em uma “sensualidade” mais direta dessas formas mitológicas.

O filme, inegavelmente, remete a um imaginário de imagens religiosas  em que os detalhes do cgi funcionam como as minúcias decorativas de um espaço arquitetônico. Não é por menos que o lugar em que as três caixas se unem vira uma espécie de catedral das trevas.
Até em uma cena simples como a conversa entre Amy Adams e a Diane Lane na mesa de um apartamento, a contraluz que vem pela janela e recorta as duas é mais expressiva do que a possível emoção que o diálogo expressa. Ou seja, mesmo nessas cenas cotidianas existe um senso de divindade implícito.

Em última análise é como se os personagens virassem objetos de decoração e adoração – essencialmente, são o que são, vide os bonequinhos que vários fãs tem no seu altar particular – que simplesmente posam junto com o cenário.

Conceitualmente falando, essa ideia faz todo sentido: em um filme sobre a grandiosidade de deuses e heróis, nada mais conveniente do que a postura se assumir como algo mais relevante do que a palavra. 

Se antes essa postura possuía uma auto importância que soava forçada, aqui ela é integrada em detalhes mais diretos e específicos que revelam um cineasta muito mais maduro.

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