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PARASITA (2019): A encenação como resistência

Bong Joon-ho reflete sobre a natureza política da encenação

 

Junto com A Visita (2015), Parasita (2019) é um dos filmes dessa década que melhor trabalha com uma variedade de gêneros cinematográficos. A obra começa como uma comédia de costumes que beira o absurdo (remete um pouco até ao cinema de Yorgos Lanthimos), mas acaba transitando entre vários tons (thriller, drama, terror) sem nunca perder a sua unidade dramática.

O longa de Bong Joon-ho narra a história de uma família em que todos os membros estão desempregados. Aos poucos, os pais e filhos passam a trabalhar para uma família rica, articulando segredos e pequenos golpes para se infiltrar cada vez mais em uma vida luxuosa. 

Toda a unidade formal e dramática do filme tira forças justamente dessa sua variedade de tons. Na medida em que novas histórias e personagens são incluídos (como a empregada doméstica e o seu marido), Bong Joon-ho insere novos apelos na sua premissa original. Uma prática que poderia, facilmente, resultar em um filme apelativo. Ainda mais se pensarmos na obsessão do diretor por uma constante reinvenção e rearticulação da história.

O que acontece é justamente o contrário. O filme vai se tornando cada vez mais complexo já que as relações exageradas em que os gêneros se inserem estão sempre muito bem relacionadas a um contexto social que reflete sobre a aura insensata da realidade sugerida. 

Como o absurdo e os exageros não deixam de ser uma das marcas do próprio abismo social que o filme se debruça, esse tom levemente irreal e histriônico parece mais do que adequado ao fazer justiça a uma realidade desigual igualmente absurda. 

Nesse ponto, o cineasta integra a realidade do seu país a um sugestivo jogo sobre a natureza da encenação. A família pobre que se infiltra no espaço da família rica trata a encenação – a dissimulação, os novos papéis que cada um desempenha – como uma espécie de luta de classes travada no palco das aparências. 

Uma luta de classes que usa a potência da imagem e do drama (os personagens escrevem os seus textos e mudam a sua aparência para conseguir adentrar o outro núcleo social) como uma forma de reapropriação das posses e dos valores alheios. 

Mais do que ser rico ou ser inteligente, tudo se transforma em uma questão de aparentar ser rico ou ser inteligente. A grande proposta de Parasita (2019) é reconhecer que a ideia de propriedade, consequentemente a natureza financeira e moral dessa propriedade, não passa de uma questão de performance. No capitalismo imediatista de hoje, fingir ter ou fingir saber é mais importante do que de fato ter ou saber.

Todo o jogo com essa dissimulação imediata é muito bem integrado na unidade estilística do longa. Bong Joon-ho usa uma variedade de artifícios formais (a decupagem dinâmica, o slow motion, a montagem frenética) e narrativos (a história sempre se reconstrói agilmente) como um modo dar conta dessa constante reinvenção. 

O estrondoso sucesso do filme com certeza se deve ao fato de que ao mesmo tempo que a obra elabora uma reflexão de motivação política absolutamente atual, integra apelos de entretenimento e drama na sua estrutura. Seja pelas formas inesperadas como os acontecimentos vão se resolvendo (uma prática que lida diretamente com a quebra de expectativa do público), seja por uma desesperança melancólica implícita naquela realidade (um drama muito bem articulado, principalmente, no personagem e na visão de mundo do pai da família pobre).

Parasita consegue ser profundo, absurdo e até mesmo engraçado. Um equilíbrio que nunca pende para um lado só e concebe das experiências cinematográficas mais complexas e emocionantes do ano. 

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