INFILTRADO NA KLAN (2018): Passado e presente

Spike Lee propõe abordagem política instigante, mas de resolução dramática deslocada

Infiltrado na Klan (2018) possui uma proposta idealista que dialoga entre passado e presente. Seja ao questionar cânones cinematográficos que tiverem seu racismo velado por sua grandeza histórica – como O Nascimento de uma Nação (1915) e …E o Vento Levou (1939) -, seja pelas ocorrências de um discurso de ódio que atinge, hoje, o Estados Unidos (e o mundo), e reflete diretamente o contexto da época que é abordada no filme.

Apesar desse elemento político ser interpelado de maneira instigante, a resolução dramática do trabalho não acompanha a força de seu projeto problematizador.

Baseado no livro de Ron Stallworth, o filme narra a história do próprio autor, um policial negro do Colorado que se infiltra na Ku Klux Klan para investigar o grupo.

O maior acerto de Spike Lee é a maneira como a obra ridiculariza a Ku Klux Klan, porém sem cair em uma simples retórica caricata. Existe uma aproximação pela comédia que ao mesmo tempo que nunca ignora as peculiaridades daquela operação – e aí o papel do personagem de Adam Driver e seus encontros pitorescos com os membros do grupo racista é essencial -, conserva a seriedade política da situação.

A primeira metade do filme é marcada por uma dualidade muito instigante tanto no sentido da comédia implícita como dos questionamentos dramáticos do protagonista. Lee é minucioso ao construir um personagem que se encontra entre a adequação (ele é um policial, membro de uma força de autoridade) e uma consciência ideológica.

Stallworth possui uma ambiguidade que o diretor retrata sem muitas concessões. Ele se vê como o membro de uma força do estado que é, ela mesma, historicamente racista, mas utiliza legitimamente de seus meios para agir contra os crimes de ódio que atingem os cidadãos negros.

O apuro visual do diretor ajuda muito nessa contextualização direta. Um formalismo que se vale de elementos gráficos implícitos em cena – da disposição dos personagens e dos cenários no quadro aos elementos históricos que preenchem o plano. Sugestões pontuais e vibrantes que falam por si só:  das sequências na delegacia com sua atmosfera impessoal e hostil que é aos poucos subvertida por Stallworth às cenas dele com Patrice (Laura Harrier) que informam diretamente sobre a cultura e a resistência negra.

A personagem de Harrier se apresenta não apenas como mero interesse romântico, mas um respiro que dá voz aos aspectos culturais e políticos que Lee deseja tratar. Além, é claro, de reiterar o conflito pessoal de Stallworth.

Os dois primeiros atos do filme dispõem muito bem da abordagem ficcional com a interpelação política proposta pelo diretor. Geram, inclusive, uma expectativa grande em relação a resolução da obra, já que Lee articula não só uma proposta problematizadora, mas um conflito narrativo muito interessante que envolve a investigação de Stallworth e um atento a bomba planejado pela Ku Klux Klan.

Apesar do diálogo entre passado e presente conservar sua força no terceiro ato do filme, a dimensão ficcional perde a força. Lee se apropria muito bem tanto das cenas do filme de D. W. Griffith como das imagens das manifestações de supremacia branca em Charlottesville – dois renascimentos reveladores e esteticamente apelativos ao seu modo -, mas resolve as pontas dramáticas do filme de maneira rotineira.

Justamente no momento em que uma catarse pontual parecia que seria explorada (a cena do batizado dos membros da KKK, o atentado com a bomba), o filme recua para uma abordagem branda. Uma aproximação que não condiz com toda a expectativa gerada até a metade da obra. Podemos afirmar que, de algum modo, essa catarse gráfica é conduzida para as imagens documentais de Charlottesville. O banho de sangue é atual. Mas, ainda assim, as resoluções dramáticas são tratadas de maneira inofensiva. Rejeitam uma intensidade que o tema propõem.

O filme localiza as comparações entre sua história e a atualidade – o que funciona muitíssimo bem como objeto de testemunho vivo do discurso de ódio – mas a conciliação fílmica propriamente entre esses dois regimes (o apelo dramático e a denúncia explícita) soa deslocada. Enquanto a brutalidade dos dias de hoje é escancarada, a narrativa se encerra através de uma aproximação gráfica bastante moderada.

Mesmo que os fatos reais narrados no livro de Stallworth possam limitar essa possibilidade cinematográfica catártica, o tom trivial com que os fatos finais são narrados não se integram, exatamente, à abordagem denunciativa de tom pouco comedido que é central às intenções do filme.

Infiltrado na Klan (2018) é impecável em seu trajeto atemporal de alerta, de expor a infâmia do discurso de ódio que, hoje, é praticamente institucionalizado na figura de Donald Trump, mas peca em não tratar sua própria história com a mesma impetuosidade.

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