Realidade e ilusão na franquia MISSÃO IMPOSSÍVEL

Filmes preservam sua autenticidade conciliando tom imaginativo com ação realista

Ao mesmo tempo que os filmes da franquia Missão Impossível articulam um jogo de ilusão muito característico – farsas, máscaras, plot twists -, os longas fazem questão de trabalhar com uma dinâmica de ação realista e objetiva.

Mesmo que alternando entre diferentes diretores, é possível perceber esse denominador comum entre um componente imaginativo (o artifício fantasioso e mesmo irreal de algumas sequências e elementos em cena) e uma praticidade, um trato franco com o espaço da ação.

É essa ambiguidade que preserva a autenticidade dessas obras. Trabalhos que nunca se determinam por um tratamento restritiva e conservam-se abertos a uma constante flutuação nesse sentido. 

Ainda que partindo de abordagens que, se analisadas como um todo, fazem um caminho mais ou menos linear nessa desconstrução – o maneirismo dos primeiros filmes que descamba numa maleabilidade processual dos últimos – os filmes, isoladamente, resguardam um desapego por uma sobriedade que os limitaria e, em última análise, celebram uma irremediável crença na capacidade de execução dos seus personagens.

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ELOGIO AO MANEIRISMO

O primeiro filme, dirigido por Brian De Palma, foi muito feliz ao iconizar alguns elementos marcantes do universo da franquia. Já na primeira sequência, existe uma desconstrução completa dos elementos em cena: Um homem observa algo em um monitor onde pessoas falam em russo (soa como um filme estrangeiro). Um personagem bebe algo, ele desmaia. Todo o cenário se desfaz. Um senhor de bigode, que fazia parte da encenação, tira sua máscara: é Tom Cruise.

Missão: Impossível (1996)

De Palma já abre o filme refletindo não apenas sobre a real coerência da história (o pacto ficcional propriamente), mas articula um mini curto-circuito sobre a linguagem cinematográfica. A cena se constrói – o filme se apresenta – ao mesmo tempo em que desfalece diante nossos olhos. E o resto do trabalho acaba se encontrando em um tom que equilibra o maneirismo característico do diretor com uma eficiência hollywoodiana ali em voga.

Missão: Impossível (1996) é a perfeita combinação entre os excessos de seu realizador (os plongée, as subjetivas, a caricaturização de alguns personagens e resoluções) e a entonação cool de seu astro. A ressaca maneirista de De Palma pode estar mais diluída do que em alguns filmes que ele faria, inclusive, depois desse – como Femme Fatale (2002) – , no entanto fica claro que não estamos diante de um simples filme de ação e sim de uma obra que faz questão de evidenciar sua elasticidade ao flertar com tradições cinematográficas que vão se expondo e se reconstruindo.

Missão: Impossível (1996)

A dimensão tecnológica do filme, inclusive, joga com isso. Os gadgets servem para ajudar os personagens em cena, mas também confundir a audiência. As ações se constroem nessa dualidade de aparências que vão se desmanchando.

Enquanto De Palma estabeleceu um universo que, sim, era até certo ponto ajustável em suas estratégias, mas mantinha uma seriedade dramática, John Woo, no segundo filme, sonhou mais alto. O chinês, que vinha do incrível A Outra Face (1997), pega carona na tradição maneirista do norte-americano e, em vários sentidos, a extrapola.

Além do característico uso do slow motion – a cena de perseguição entre o personagem de Tom Cruise e Thandie Newton em um penhasco orquestra seus carros em um ballet muito marcante -, a figura do próprio protagonista em Missão Impossível 2 (2000) se forja dentro de um regime burlesco. Os cabelos de Tom Cruise, o seu sorriso característico. Tudo forma uma persona vulgar que se assume como o reflexo publicitário de si mesmo.

Missão: Impossível 2 (2000)

John Woo faz um filme, em poucas palavras, hiperestilizado. Comenta sobre as peculiaridades de seu astro e banaliza alguns elementos daquele mundo. O artifício das máscaras, por exemplo, é usado e reutilizado sem muito apego. O diretor induz tudo a uma base primária e extremamente possibilitadora justamente por celebrar cada mínimo detalhe sem qualquer cerimônia. O filme vai do suberótico ao sarcasmo autoconsciente em pouquíssimos movimentos.

Se no primeiro longa o que contava era uma lógica da ilusão, da pista falsa, aqui, definitivamente, temos uma relação que integra uma certa mística dissimulada a isso, uma dinâmica da aparição, do slow motion que não está ali apenas para idealizar um gesto hipersignificado, mas desafiar a física da cena. Mais uma vez, a realidade e a ilusão se tensionam. Suscitam novas possibilidades imagéticas que reacomodam elementos já familiares.

J.J. Abrams, o diretor do terceiro filme, foi o único a não explorar esse fator de maneira direta. Missão: Impossível 3 (2006) cai em um limbo pouco glorioso na trajetória da franquia, já que é um filme mais interessado na humanização genérica dos personagens. A figura de Julia, o interesse romântico do protagonista, surge para tensionar suas escolhas, mas acaba domesticando a obra numa novelização morna.

Missão: Impossível 3 (2006)

Ainda que o filme de Abrams possua sequências isoladas interessantes (a fuga no helicóptero no começo é uma delas), o filme funciona dentro de uma perspectiva realista limitadora. É uma obra que se adequa, ou pelo menos tenta, a uma dimensão comum do gênero de ação (os vícios de um cinema frenético à Jason Bourne) e deixa de lado as particularidades do universo que o cineasta tem em mãos.

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UM IDEAL MATERIAL

O quarto filme, dirigido por Brad Bird, marca uma virada. Passado o momento maneirista concebido por Woo e De Palma, Missão: Impossível – Protocolo Fantasma (2011) se apoia em um mote de constante negociação, de reordenação da ação e dos fatos a partir de um elemento surpresa e de um erro iminente.

Algo que até existia nos primeiros filmes, mas que, agora, acaba assimilando um elemento físico de maneira muito mais direta. Um jogo de sobrevivência que busca a essência concreta do ato impossível.

Missão: Impossível – Protocolo Fantasma (2011)

A ordem, no filme de Bird, é a do improviso. Gadgets falham, os planos dos personagens são constantemente frustrados. Todos são obrigados a realizar pequenos milagres (outra vez, o tom fantasioso) e repensar de imediato suas ações para completar suas metas. A já clássica cena em que Tom Cruise escala o prédio em Dubai é uma das mais marcantes nesse ponto. Frustrado por suas luvas, o personagem é obrigado a fazer o possível e o impossível. Tem suas capacidades testadas até os últimos segundos.

O filme tem gosto em levar suas situações até as últimas consequências. Constrói uma tensão que parte de bases, agora, muito mais realistas e concretas, mas ainda preservando uma aura imaginativa (sabemos que, apesar dos pesares, as coisas se resolverão). Tudo isso a partir de uma abordagem que faz questão de usar efeitos práticos. Um movimento que, novamente, desafia a física, mas, ao mesmo tempo, lida com uma inventividade iminente que está ali para conservar um suspense realista poderoso.

Ou seja, o filme se guia por uma tradição (o elemento do inesperado que remodela o encadeamento das cenas), mas lida com ela de forma maníaca.

Missão: Impossível – Protocolo Fantasma (2011)

Até mesmo os feitos de Tom Cruise – que recusa usar dublês – ficam ainda mais marcantes. Protocolo Fantasma marca o início dessa obsessão material da franquia. Algo que evidencia o universo palpável desses filmes e transparece a fixação de Cruise pelo papel de Ethan Hunt. Há quem diga que o personagem é uma espécie de alter ego do ator. E de fato, é como se a cada novo filme o protagonista quisesse superar seus feitos. Ir mais longe. Flertar com o perigo e fazer desse registro tanto um ato vaidoso como uma perspectiva que intensifique a realidade das cenas.

Christopher McQuarrie, diretor de Missão: Impossível – Nação Secreta (2015) e do recente Missão: Impossível – Efeito Fallout (2018) dá continuidade a esse projeto herdado de Bird: o tom material reiterado pelo efeito surpresa, o regime do erro que obriga as sequências a, constantemente, se reestruturarem.

Missão: Impossível – Nação Secreta (2015)

Nação Secreta mantém uma relação tecnológica que marca todos os filmes, mas faz questão de investir em cenas de luta e de uma ação mais franca. McQuarrie, ao mesmo tempo que é muito contemporâneo na objetividade das sequências que filma (um formalismo muito limpo e direto que rejeita, com todas as letras, o realismo genérico de Abrams), remete a uma herança mais tradicional. Leva essa ordem física a um grau que torna a cena mais crua, ainda que submissa a uma ordem coreográfica característica.

A personagem de Rebecca Ferguson reflete muito bem essa dualidade. Possui uma elegância que se adequa à mitologia da franquia e flerta com os elementos clássicos do cinema de espião, e é também bastante agressiva e pontual nas cenas de ação.

Missão: Impossível – Nação Secreta (2015)

Toda a sequência da ópera, no filme de 2015, possui uma natureza depalmiana (o espetacular como pano de fundo que se integra a lógica orquestrada do suspense), mas é também muito imediata na sua relação corpo a corpo. Os dois filmes de McQuarrie assimilam uma relação até certo ponto retrô (a herança maneirista na caracterização dos espaços e dos cenários), porém controlada dentro de uma mise-en-scène limpa e de intenções muito mais práticas.

Se em Nação Secreta temos a sequência da ópera, em Efeito Fallout, a cena em que Ethan Hunt encontra a personagem da Viúva Branca em um bar traz condição semelhante. Um ambiente de caracterização old fashioned, quase noir, que em alguma medida até funciona como uma homenagem ao glamour do cinema de espião, mas que rejeita a imagem como um simples artifício da memorabilia.

Missão: Impossível – Efeito Fallout (2018)

A luta que Cruise e a Viúva Branca travam no bar, contra os homens que vão brotando, atesta isso: uma decupagem que assimila certa elegância (explora bem a caracterização do seu espaço e dos seus personagens) e é objetiva e violenta na sua execução. Funcional no sentido mais vigoroso que a palavra possa ter.

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UM CINEMA AUTOCONSCIENTE

É inegável que desde os primeiros filmes, a franquia conserva um gosto por expor suas operações. Nesse procedimento de uma desconstrução constante que fica mais evidente a partir do filme de Brad Bird, mas já fazia parte da essência dos dois primeiros longas, existe uma natureza que está sempre performando possibilidades, flertando com várias saídas (tanto literais como dramáticas) que rejeita uma unidade exatamente confiável.

O efeito surpresa não é apenas artifício narrativo, é um elemento de renovação que integra uma liberdade. Nesse movimento de exposição, os filmes, direta e indiretamente, se tornam comentários sobre eles mesmos. Ao ponto de Missão: Impossível – Efeito Fallout (2018) se tornar uma obra tão consciente dessas possibilidades que usa justamente dessa imprevisibilidade, desses atropelos de acontecimentos e viradas de roteiro, como um dispositivo norteador de autonomia completa.

Missão: Impossível – Efeito Fallout (2018)

A questão essencial da obra é nunca se colocar numa posição transparente. O filme trabalha com possibilidades que, constantemente, vão se anulando. Mal assimilamos um plot twist quando já existe outro. Uma cena de ação começa de um jeito e envereda por um caminho oposto. O trabalho brinca com isso. Faz desse elemento consciente tanto um apelo dramático como, por que não, anti-narrativo.

O próprio Christopher McQuarrie, em entrevista para o Hollywood Reporter, comentou sobre essa maleabilidade da obra:

O que precisa acontecer? O que precisa acontecer agora? Qual é a coisa mais interessante que pode acontecer agora? Como você dizia, o roteiro terminado é que manda. Em Missão, o roteiro terminado não manda em nada. O roteiro terminado na verdade confina e limita. Através da descoberta, tudo que eu realmente preciso é saber onde é a locação e quais itens precisam estar lá no dia, incluindo veículos, objetos de cena, cenário e atores. Tudo que acontece nessa cena é maleável e pode mudar, contanto que mude em conformidade com o que já foi filmado. Mas isto não precisa estar em conformidade com o que ainda não foi filmado. O que ainda não foi filmado é completamente maleável.

Mesmo dentro de um esquema hollywoodiano, o realizador mantém sua obra aberta em um processo que beira o lynchiano. O roteiro nunca deve limitar as possibilidades do que ainda pode acontecer.

Missão: Impossível – Efeito Fallout (2018)

O vilão misterioso de nome John Lark, em Efeito Fallout, não deixa de ser um comentário direto disso. John Lark não é ninguém porque pode ser todo mundo. Incluindo o próprio protagonista. O inimigo não precisa existir, desde que a missão se encontre em permanente movimento.

O filme pertence a uma dimensão flexível onde o que importa não é mais a verdade ou a estabilidade da trama e dos personagens, e sim a versatilidade que tudo isso pode ter. As versões de tudo. As possibilidades de recomposição que isso oferece. O fluxo constante dessa reorganização.

A visão de Ethan, quando  ele especula como se dará o roubo em que deve participar e se vê obrigado a matar um policial – um plano sequência malickiano, de tom onírico e musicado – é uma dessas alternativas performáticas evidentes.

O cinema não é simples meio para um filme de gênero completar e repetir os seus desígnio, mas usa das características desse gênero para conceber tanto uma desconstrução iminente que mantém o espectador sempre preso a cadeira (a performatividade assumida), como uma experiência sensorial que aquela possibilidade revela.

McQuarrie expande ainda mais a relação entre ilusão e realidade do universo da franquia. Assume a sua maleabilidade (a constante reconstrução é mote imaginativo), mas preserva a sua fé material. Tom Cruise simplesmente correndo, em Efeito Fallout, é um acontecimento fabuloso. A entrega do ator, harmonizada com a orquestração daquele mundo moldável, torna o mais simples dos atos (fugir, correr) um evento excepcional.

Missão: Impossível – Efeito Fallout (2018)

Em tempos onde o cinema de ação, como tantos outros, busca um simples efeito imediato, um impacto pelo impacto que leva o espectador de sequência a sequência sem qualquer relação de acúmulo ou construção dramática, os filmes da franquia Missão Impossível fazem desse mesmo procedimento o seu gesto conceitual. O provisório não é parte de uma relação narrativa sem fundamento, é o objetivo propriamente de um cinema onde o real e a ilusão, o concreto e a farsa, constituem um mundo de perspectivas sensoriais e dramáticas em constante transformação.

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