24 FRAMES (2017): Forjando a realidade

Filme póstumo de Kiarostami integra a tecnologia ao refletir sobre o real e o adulterado

Abbas Kiarostami é conhecido por sua vocação naturalista. A partir de filmes que constantemente tensionam o real e a ficção, o iraniano constrói relatos comoventes e retratos espontâneos do seu entorno. Utiliza da ambiguidade da linguagem cinematográfica para conceber uma dimensão muito particular da realidade dramática.

Sem dúvidas Kiarostami foi um diretor que reverenciava muito elementos naturais e genuínos em seus filmes. Mas o artista, também, conservava certo gosto pelo forjado. Nada mais revelador disso do que a sequência final de Close-up (1990), quando o cineasta escolhe entrecortar o som, simulando um problema técnico, em prol de um efeito dramático que torna o encontro entre Mohsen Makhmalbaf e seu farsante ainda mais envolvente.

Durante toda a sua carreira, o realizador conciliou muito bem uma apropriação documental com a manipulação consciente do seu material.

24 Frames (2017), nesse sentido, acaba sendo um filme final bastante oportuno. A obra é composta de imagens estáticas (uma pintura de Pieter Bruegel the Elder e fotografias do próprio Kiarostami) que, a partir da inserções e efeitos especiais, ganham movimento. O filme sintetiza de maneira muito elementar o processo do seu realizador: lida, diretamente, com a dualidade entre o real e o adulterado.

A diferença principal, aqui, é que a obra assume uma plasticidade límpida bastante característica do uso desses efeitos. Integra a tecnologia como uma etapa inevitável nesse processo. Enquanto um filme como Cinco (2003) tem em sua apreensão pelo cotidiano uma busca que recusa mediações, 24 Frames não apenas assume essa intervenção tecnicista, mas a expõe na tela.

O plano 15, por exemplo, se inicia com uma imagem estática de um grupo de pessoas, de costas, olhando para a Torre Eiffel. Uma simples fotografia em preto e branco. Aos poucos, surgem passantes e uma chuva de neve se inicia. Mas o grupo continua imóvel. O plano se comporta como camadas que dialogam indiretamente. O filme não parece preocupado, necessariamente, em obter um efeito real, mas em evidenciar o seu procedimento. Expor as suas etapas. Fazer dessa própria metodologia escancarada, um encanto peculiar.

O que acaba gerando, paradoxalmente, um senso narrativo. Os planos começam relativamente com pouca ação e, a medida que os elementos são inseridos e a tecnologia é aplicada, ele minuciosamente se complexifica. Existe uma ideia de dispositivo que ao mesmo tempo que é rigorosa (planos estáticos e enquadramentos abertos), tem muita liberdade no sentido de ir reinventando e povoando essas paisagens.

Uma reinvenção que não apenas adiciona novos elementos ao plano, mas muitas vezes cria novos quadros dentro de uma mesma imagem. O plano 9 reduz um casal de leões a um pequeno portal no centro da fotografia. O plano 14 faz a mesma coisa com uma janela e um grupo de pombos.

Tudo isso, além de lidar com a dicotomia de ritmos entre a imagem estática e a imagem em movimento (o frame 15 é, diretamente, um comentário sobre isso), o filme reorganiza visualmente as possibilidades dessa relação. Idealiza o que seria, nesse ponto, uma imagem sem limites.

Em uma cartela no início do filme, o próprio Kiarostami relata que sempre imaginava o que acontecia nos minutos antes ou depois de uma imagem fotográfica ser tirada. E, assim como em seus filmes de ficção, o diretor fabrica essa realidade. Constrói uma banalidade que parte de bases imateriais (a tecnologia), para dar vida a uma poesia que se encontre entre esses dois regimes (o concreto e o fabricado).

24 Frames (2017) parte de um experimento que soa relativamente simples e despretensioso, mas evidencia o método primordial do seu cineasta. Mais do que isso, fundamente esse olhar em uma relocalização tecnológica que reflete sobre o futuro. Nada mais revelador do que o último plano do último filme da vida de Kiarostami ser o de uma pessoa descansando serenamente na frente de um iMac que exibe o beijo final entre Teresa Wright e Dana Andrews em Os Melhores Anos de Nossas Vidas (1946) sendo renderizado em um programa de edição: as imagens se transformam, o cinema perdura.

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