FIRST REFORMED (2017): Extinção iminente

A partir de heranças bressonianas, diretor constrói relato desolador sobre a civilização

Paul Schrader é o realizador de grandes obras como Marcas da Vingança (1999), O Dono da Noite (1992) e Mishima: Uma Vida em Quatro Tempos (1985) – filmes que, em muitos casos, conciliam relações do cinema de gênero com uma busca autoral muito específica em suas temporalidades e demais construções formais.

Porém, seus últimos trabalhos, além de sofrerem com disputas entre o estúdio a o realizador, caso de Vingança ao Anoitecer (2014), não dispunham lá de muita inventividade. Mesmo Vale do Pecado (2013), o filme com Lindsay Lohan que prometia um glorioso passeio entre iconografias do cinema B, passou longe da expectativa que criou.

First Reformed (2017) não só contraria toda essa maré pouco criativa dos últimos anos, mas se estabelece como uma das obras mais importantes de toda a filmografia do diretor norte-americano.

Ethan Hawke vive o pastor de uma pequena igreja que narra os acontecimentos de sua vida. Entre encontros e conversas que, em um primeiro momento, parecem triviais, o personagem entra em uma espiral de questionamentos que o filme nunca nivela, mas assimila com uma ambiguidade poderosa.

O reverendo não é acometido de uma simples crise, mas, a partir de acontecimentos específicos envolvendo o suicídio de um ativista político radical, passa a ter consciência da sua submissão dentro de uma configuração social, da sua função patológica e improdutiva a partir disso.

Schrader deixa muito claro que quem está em crise não é somente o homem pelo homem, mas as instituições pelas quais ele se devota. O protagonista, ao mesmo tempo que começa a ter uma consciência universal que o aterroriza, passa a se isolar e a se alienar. Uma meditação que parte da recusa pelo coletivo para enxergar, com maior clareza, a tragédia que a civilização contemporânea se tornou.

O coletivo já está tão contaminado que é somente nesse individualismo extremo e autodestrutivo, nesse estado de pária social, que o personagem encontra uma possibilidade de redenção. Ou pelo menos de paz passageira, já que, em certo momento, ele mesmo afirma: I have found a new form of prayer / Eu encontrei uma nova forma de oração.

A própria estrutura temática do filme se assume em uma espécie de alienação cinematográfica do diretor com ele mesmo. Não só pelas referências diretas – de Robert Bresson (tema da pesquisa teórica do cineasta) a Taxi Driver (1976) (Schrader foi roteirista do filme de Martin Scorsese), mas na forma como o texto progride e é encenado.

Um texto arbitrário que lança mão de temas e elementos sem muitas cerimônias, assuntos atuais de claro interesse do cineasta, mas que ao mesmo tempo incorpora uma matemática formal muito rigorosa na mise-en-scène. Um rigor que dá conta da maneira como isso vai sendo colocado. Potencializa a construção imagética entre as proposições sugeridas no roteiro e a maneira que Schrader filma aquele mundo.

Existe uma homogeneidade no formalismo do filme que até flerta com algumas relações alegóricas mais evidentes (a viagem em chroma key é o ápice disso), mas tudo acaba se concretizando em um realismo cru e objetivo.

O minimalismo da casa do reverendo – literalmente um palco, um estúdio fechado onde a posição de cada objeto é calculada, onde a maneira que o corpo do Ethan Hawke se comporta é pictoricamente colocada – é o que melhor evidencia essa natureza austera e bressoniana, mas ao mesmo tempo alusiva, esse romantismo simbólico ríspido. Uma natureza que está, novamente, ligada ao isolamento do homem, já que a casa do personagem é o principal dispositivo disso.

No final das contas, o filme até pode parecer que pende para um lado, especialmente na crescente simpatia do reverendo pelas ideias do ativista radical que conheceu, mas acaba não escolhendo nada, apenas evidencia um niilismo desesperador.

Outra vez remetendo a Robert Bresson, a uma possibilidade de leitura marxista, presente especialmente em obras como “O Dinheiro”  (1983) e “O Diabo, Provavelmente” (1977), mas que supera isso pelo sua descrença patológica em relação a um mundo materialista em plena destruição: não existe luta se não existe nada a ser salvo.

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