TORMENTO DE UMA GLÓRIA (1949) faz do cinema um registro pelo singelo

Jacques Tourneur integra clareza com andamento dramático comovente

Apesar de Tormento de uma Glória (1949) ser dirigido por Jacques Tourneur – realizador de célebres filmes como Sangue de Pantera (1942) e Fuga do Passado (1947) – o longa não possui um traço autoral óbvio.

Isso não significa que o filme de 1949 seja uma obra inferior, pelo contrário, a condução direta do drama e a maneira muito clara como toda a trama flui, faz do longa um dos maiores trabalhos do cineasta.

O filme se comporta, em várias medidas, como uma obra comum de estúdio. Não possui grandes intervenções de linguagem e se foca em uma história simples: um jogador de futebol americano, no ápice da sua carreira, descobre que tem uma doença no coração e precisa lidar com questões imediatas que irão definir sua vida. De sua relação conjugal ao seu futuro profissional.

Tudo no filme é muito rápido e sem rodeios. Tourneur resolve as cenas da maneira mais econômica possível, quase que apagando-se em benefício da força da história. Mas o que soa como um simples jogo pragmático, vai, aos poucos, revelando pequenas nuances muito poderosas.

Um simples diálogo do personagem de Victor Mature com seu colega de time que está prestes a ser demitido, evidencia uma melancolia implícita. Uma tristeza e uma culpa que podem não estar obviamente estampadas no plano, mas que pela naturalidade dos seus gestos, pelo despojamento de sua construção, paira sobre a sequência.

Uma operação que nos remete diretamente ao cinema de Otto Preminger e aos primeiros filmes de Joseph Losey, como o magnífico Cúmplice das Sombras (1951). O que está em jogo não é uma exploração formal provocativa (coisa que o mesmo Tourneur, inclusive, acaba trabalhando em alguns outros filmes), mas um registro que, justamente por sua singeleza, realça as forças do procedimento de uma cena.

Mesmo sem uma inventividade explícita, a maneira como o diretor resolve algumas cenas que envolvem vários personagens e diversos elementos, é bastante única. Seja nas sequências nas festas ou reuniões que Mature ou sua esposa frequentam, seja no vestiário do time. É impressionante como o realizador consegue, simultaneamente, contextualizar uma ação mais geral (de fato dá importância aos coadjuvantes e aos elementos da cena) e destacar um pormenor: uma fala, um gesto, um olhar.

Além da ótima atuação de  Victor Mature, Lucille Ball intui esse universo subentedido da obra com destreza característica. A personagem, uma secretária do time que é apaixonada pelo protagonista, é sempre muito ambígua em suas ações. Deixa clara a sua admiração, mas nunca baixa a guarda. Conserva um tom que, no fim das contas, é sim um pouco resignado, mas realça uma graciosidade constante.

Tormento de uma Glória pode até soar como um filmes despretensioso, e ele até o é em vários sentidos. Mas é na integração entre uma abordagem direta e uma reverência a sucessão dramática da sua história que o filme oculta a sua grandeza.

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