ERA UMA VEZ BRASÍLIA (2017): País em destroços

O limbo estagnado e revelador da ficção científica de Adirley Queirós

Era Uma Vez Brasília (2017) é um filme mais sobre uma frustração do que uma resistência. Pode até existir um mote libertário implícito nessa imobilidade que o trabalho propõe, mas o longa de Adirley Queirós se foca muito mais em um jogo de erros e em uma derrota para evidenciar um sinal dos tempos.

Partimos de uma história de ficção científica: um agente intergalático, vindo de outro planeta com a missão de matar Juscelino Kubitschek, acaba se perdendo no tempo e cai na Ceilândia em 2016, no Distrito Federal. Momento de golpe do Impeachment de Dilma Rousseff.

A própria premissa do longa parte de um erro, um desvio sem volta. E, dessa maneira, tudo no filme é fracasso. Nada progride. A narrativa permanece estática. O drama não evolui. A ação direta é, na maior parte do tempo, imóvel. Nada acontece. Os planos sãos longos e duram tempo o suficiente para perderem qualquer sentido de localização dramática. O espectador é colocado em um estado de suspensão, na expectativa de algo que nunca vem.

Ou seja: a distopia alienante que Queirós propõe integra todos os elementos da experiência do filme. O longa existe, literalmente, nesse limbo de um país que estagnou, que deixou de fazer sentido. A paralisia se torna uma questão conceitual que integra as ordens da linguagem cinematográfica. Escutamos o som do julgamento do processo de impeachment de Dilma Rousseff ao mesmo tempo que vemos essa imobilidade distópicos e, assustadoramente, as duas coisas se completam.

Nessa ordem fantasiosa – uma dimensão onde tudo está parado porque tudo está fora do lugar – o filme concilia muito bem a sua alegoria (a ficção científica) com a apropriação documental proposta (as ruas da Ceilândia que reiteram uma desolação sombria).

O filme ressignifica a sua realidade dentro de um código que é fantasioso, mas também não é, porque estamos diante de um fato que aconteceu e que vai, ainda, deixar suas marcas. Movimento de relocalização alegórica que o diretor, de algum modo, fez em seu longa anterior – Branco Sai, Preto Fica (2014) -, mas que aqui é muito mais incisivo.

Tanto em relação a sua contextualização atmosférica, que é muito mais radical e rigorosa, quase crua em alguns sentidos, como na questão plástica. Era Uma Vez Brasília (2017) é um filme muito bem fotografado e que usa os seus espaços para sugerir esse limbo atemporal de, ironicamente, uma realidade existente. Espaços sombrios de tempos sombrios.

Uma obra que pode soar pessimista, e que até é em vários sentidos, mas nunca derrotista. Adirley Queirós é radical nas sua austeridade justamente para denunciar um desastre iminente daquilo que já ocorreu. E que, tragicamente, expõe seus destroços onde que quer olhemos.

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