TENET (2020)

O bom é que o Nolan inverte a própria lógica também: quanto mais ele explica o filme, menos você entende. Talvez o Mãe! dele. Coloca tanta coisa no meio que os acontecimentos vão perdendo um significado e a imagem vale por si.

Mesmo que essa “abstração” não seja a intenção (provavelmente ele realmente espera que a gente entenda boa parte do que se passa), não deixa de ser um alívio se livrar logo de cara dessas motivações mais nerds e simplesmente curtir a ação.

Justamente quando o cara tenta fazer um “blockbuster cerebral” é que sai um blockbuster bem direto à Christopher McQuarrie.

Parece até uma homenagem iconoclasta ao próprio cinema dele. 90% dos diálogos estão ali pra definir algum conceito, descrever alguma coisa ou passar alguma informação e, ao mesmo tempo, existe uma ação seguinte que descarta o que foi dado. Funciona bem nessa efemeridade assumida.

Ainda que o filme busque algumas sacadas na sua estrutura e tente se fechar narrativamente, o modo como as sequências vão se atropelando e se reformulando é o que orienta (ou desorienta) tudo.

Mesmo o fato do protagonista nunca saber, exatamente, o que vai encontrar. E, principalmente, o fato dele mesmo questionar o seu protagonismo, reforça essa ideia de uma desconstrução muito mais livre.

O personagem do John David Washington não é um homem totalmente consciente da sua missão, é uma mera peça no meio daquilo (o diálogo final com o personagem do Pattinson fecha isso muito bem). O Nolan se livra um pouco do apelo emocional (a parte mais fraca do filme é justamente o envolvimento do protagonista com a esposa do vilão) e se foca, finalmente, no JOGO.

Jogo não só no sentido da gamificação mais assumida (o ato final é literalmente uma campanha de Counter-Strike ou coisa do tipo), mas jogo no sentido que um crítico como Serge Daney coloca: “A sobrevivência do cinema está hoje na capacidade de jogo que ele pode criar no interior de um sentimento geral de saturação em relação às imagens.”

A saturação aqui vem do próprio cinema do Nolan. O filme é um “best of” não linear da sua carreira, como também da própria dinâmica do blockbuster como um todo. Talvez ele tenha desistido de abrir concessões didáticas e, bizarramente, parte desse mesmo modo ultra pedagógico para desestruturar e expor os apelos do próprio cinema.

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