MANK (2020)

Gosto como o Fincher não tenta emular um filme dos anos 30 ou 40. Inclusive parece que a unidade estilística dele reforça justamente o que existe de mais artificial nesse entorno: as sacadas nos diálogos, a pose dos atores, os cenários grandiosos, a natureza falsa na paisagem (a cena do zoológico particular é das que melhor assume isso).

É um falso filme de bastidores em vários aspectos. Até mesmo a liberdade e a ironia que ele tem em lidar com os fatos históricos reitera isso.

Não deixa de ser engraçado pensar que um filme que questiona a autoria do Orson Welles acaba se apropriando de escolhas de linguagem que remetem muito ao diretor de Cidadão Kane.

A maneira como o Fincher estiliza as cenas, evidencia os cenários, intercala a decupagem entre planos próximos estilizados e planos gerais com alta profundidade de campo sem dúvida iria agradar o outro cineasta.

E ainda que eu curta muito essa abordagem visual, sinto que ele deixa de lado algumas questões mais essenciais da encenação dramática. Me parece que esse tom assumidamente artificial e até maneirista não casa com o humanismo que o Mank deve passar pro drama evoluir.

O personagem funciona muito bem em um tom cínico a partir dessas construções. Sem dúvida os melhores momentos são quando o Fincher equilibra esse cinismo com a agilidade da decupagem. Mas no fim das contas é um protagonista que soa distante.

O trabalho vende essa ideia de alguém sensível e em crise, contextualiza esse lado humano de vários modos (o subplot político, a relação familiar dele com as ajudantes), mas não consegue passar essa sensação de intimidade através da abordagem farsesca.

Me parece que o Mank está sempre interpretando o papel do carinha escroto que no fundo tem um bom coração, mas quando a dinâmica do filme depende desse lado humano e rejeita o cinismo, o filme fica fraco.

Não acho nem que o Fincher está tão preocupado assim em provar essa tese da autoria do Cidadão Kane (até pela ironia – talvez uma piada consciente – de ser um filme bem wellesiano em alguns sentidos), mas no fim das contas não é um cara que lida muito bem com esse tipo de humanismo mais piegas (Benjamin Button já prova isso em outra medida).

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