O HOMEM INVISÍVEL (2020)

É curioso como o filme aproxima uma pegada tradicional do cinema de gênero (a premissa fantasiosa clássica do homem invisível) com uma abordagem atmosférica que está em voga (o fatídico pós-horror e companhia).

Mas diferente de filmes como Hereditário ou Ao Cair da Noite, o diretor está interessado em um princípio que remete mais diretamente às origens do filme B. Ainda que Leigh Whannell mantenha uma sofisticação inegável (a decupagem formalista, a fotografia sóbria e sem exageros, a atuação intimista de Elisabeth Moss), existe um tom caricato que é muito bem trabalhado na narrativa.

O filme se dá no confronto entre essa sobriedade da sua caracterização e o absurdo da sua premissa. As primeiras cenas com a presença do personagem invisível mostram isso muito bem.Nesse início, a personagem de Moss parece que pertence a um drama europeu ou a um filme de arte independente. Uma mulher perturbada que se sente oprimida por espaços vazios.

Os movimentos sutis da câmera ao evidenciar esse espaços vazios reforçam a ideia de uma presença abstrata. Um mal, até ali apenas psicológico, muito bem retratado pela forma como o cineasta localiza a personagem e os ambientes. Enquadramentos que remetem a variações que vão de Michelangelo Antonioni a Kiyoshi Kurosawa na forma que a arquitetura é usada para retratar essa iminência.

Quando os ataques começam, quando a personagem, literalmente, começa a voar pela sala ao ser confrontada por seu marido invisível, o filme não perde, exatamente, essa seriedade, mas a integra nessa premissa insólita. Coisa que, para alguns, pode soar até meio ridícula, mas que dentro da atmosfera já estabelecida conserva o teor dramático do longa.

A grande qualidade do filme de Whannell é lidar com o princípio de um filme B em todas as suas possibilidades (das cenas deliciosamente absurdas como a morte no restaurante até as viradas inusitadas de roteiro) usando uma sofisticação na abordagem justamente para reforçar o teor universal da tradição fantasiosa que se debruça.

O que nos remete a filmes como Os Olhos Sem Rosto (1960) ou Sangue de Pantera (1942). Um olhar psicológico que não rejeita o aspecto anormal das situações, mas torna essas situações parte da composição reflexiva da obra. Não é só por tratar de temas extraordinários que o filme precisa depravar a sua abordagem.

O Homem Invisível assume a sua sutileza ao mesmo tempo que revela a sua caricatura. Não estamos diante de um simples “terror que faz pensar”, como alguns gostam de se referir a essa nova onda. Mas de uma obra que se foca nas tradições de um gênero, na natureza imaginativa excêntrica desse gênero, a partir de um olhar estilístico contemporâneo e possibilitador.

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