Celebração e Presente – Uma análise da filmografia de Apichatpong Weerasethakul


Mal dos Trópicos (2004) – Apichatpong Weerasethakul

Publicado originalmente na Revista Juliette em dezembro de 2008.

A obra do tailandês Apichatpong Weerasethakul é uma das mais instigantes dentro do cenário do cinema contemporâneo. Consequentemente, uma das mais difíceis de se classificar. Se olharmos para o passado, é difícil localizar o que inspirou Weerasethakul na criação de uma filmografia tão poderosa e original. Talvez a resposta disso seja a superação do conceito “cinema”, no sentido de uma arte que carrega em si certas regras e procedimentos, elevando a obra a um caráter audiovisual ainda não experimentado. Graduado em Arquitetura, Apichatpong tem um forte histórico na videoarte e na vídeo instalação, formas que ainda hoje o diretor usa para se expressar. Podemos concluir então que estamos diante da metamorfose desse cinema conceitual, proveniente da instalação e das impressões do artista em um nível mais bruto de arte, como sua noção de espaço e iluminação natural característicos da arquitetura, com as possibilidades do cinema narrativo a que estamos acostumados e todas as devidas conseqüências que essa explosão possa ter.

Nessa junção da arte conceitual com a arte cinematográfica, elementos que em um primeiro momento não tenham uma característica artística óbvia, são reconfigurados pelo diretor-artista dentro de um modelo audiovisual próprio. É possível afirmar que Apichatpong extrapola os limites da arte cinematográfica, sendo não meramente experimental, mas nos revelando um novo nível de linguagem visual e auditiva. Testemunhar essa operação vem sendo uma experiência encantadora para espectadores e críticos do mundo todo.

Em seu primeiro longa-metragem, “Objeto Misterioso ao Meio-Dia”, temos uma estrutura principal que irá ecoar em todos os próximos projetos do diretor: a divisão da obra ao meio. Uma estrutura que, mesmo presente em todas os seus filmes, sofre variações em seu significado e uso. Às vezes a segunda parte do filme funciona como um espelho instintivo da primeira, em outras estamos diante de uma continuação intuitiva e bastante abstrata do que originou a história. Uma função comum é que sempre após essa divisão, a obra adquire tons enigmáticos e uma potência que eleva todo o filme a uma experiência hipnótica de força imensurável. A maneira com que essa divisão surge no primeiro longa de Apichatpong é bastante natural.

Baseando-se no método surrealista do Exquisite Corpse, o diretor e sua equipe partem com câmera e equipamentos em um viagem pela interior da Tailândia sugerindo aos nativos de cada região que continuem uma história que foi inventada pelo primeiro entrevistado. Paralelamente a isso, o filme vai exibindo tentativas de reproduzir essa história com atores, não importa quão absurdo seja a trama que os entrevistados vão criando. Porém, pelo meio do filme, essa estrutura já mostra sintomas de desgaste. É ai então que de repente, no meio da filmagem da reprodução da história, a câmera é “esquecida” ligada. Vemos os atores relaxando, a equipe entrando no cenário, o próprio Apichatpong arrumando um fresnel de luz ao fundo. Um dos atores começa a falar sobre sua avó e, gradativamente, somos transportados para outros lugares em que toda uma ternura vai sendo compartilhada. Em contrapartida a isso, a viagem da equipe pela Tailândia, ao invés de continuar ouvindo seus nativos, vai dando mais importância a seus ambientes. Surge uma radiografia conceitual sobre cada espaço  em que a equipe vai percorrendo. Essa “montagem arquitetônica”, aonde cada área física e natural é trabalhada da maneira mais sensorial e plena possível, vai se transformar numa marca forte do diretor ao longo de sua carreira. O filme se torna então essa possibilidade do olhar, uma observação que busca a plenitude de cada espaço. Não importa aonde a equipe e o diretor se encontrem, sempre haverá algo a ser filmado.

Plenitude essa que nos coloca no caminho do segundo longa-metragem de Apichatpong, dessa vez uma ficção. “Blissfully Yours” pode ser muito bem definido por uma simples storyline: uma tarde plena. Aqui temos o nascimento do que eu gosto de chamar de “amor natural”, um sentimento que tem sua intensidade e pureza fora do comum e que também será compartilhado conosco em “Mal dos Trópicos”. Toda essa pureza, que é acima de tudo instintiva, nasce de um primitivismo constante nos personagens de Apichatpong. O diretor priva seus personagens de personalidades explícitas ou estereotipadas, justamente para estudar seus instintos, trabalhar com eles como se fossem humanos-animais sentimentais, agindo e reagindo da maneira mais natural possível.

A divisão da obra aqui acontece entre o urbano e a natural. Começamos em um consultório, Min, um imigrante birmanês, tem um problema de pele. Ele não pode falar, pois não pode ser descoberto como um imigrante. Roong, sua namorada, está ao seu lado. Depois de alguns momentos na cidade, começa nossa viagem com Min e Roong, estamos dentro de seu carro, vemos tudo gradativamente ir perdendo seu aspecto urbano: as ruas vão perdendo prédios e casas, a estrada vai ficando vazia, nenhuma voz é ouvida. A celebração do amor de Min e Roong se dá início, de maneira calma e tranqüila, com momentos de tensão quando a personagem de Orn aparece, uma mulher misteriosa que sempre ajuda o casal mas que nunca deixa claro seus objetivos. Não existe trama, a história de “Blissfully Yours” se dá de pequenos momentos, gestos entre um e outro que vão de novo nos hipnotizar até seu ápice. Um momento tranqüilo a beira de um pequeno rio mas que exala uma intensidade poucas vezes experimentada. Sol, vento, nuvens e o silêncio, três corpos estirados recebendo a energia de um dia. O que pode ser mais forte? O presente, pleno e natural.

Em “Mal dos Trópicos”, talvez o trabalho mais pessoal do diretor, temos essa mesma concepção do “amor natural”, que nasceu em “Blissfully Yours”, porém reconfigurada em uma estrutura que estuda o lado mais selvagem e mesmo enigmático de uma relação a dois. Keng e Tong são dois homens apaixonados um pelo outro. Em um primeiro momento, esse amor é terno e tranqüilo. Como no filme anterior, a relação se dá de pequenos gestos e situações. Porém aqui entramos um pouco mais no indivíduo. Logo no começo do filme somos apresentados, através de uma eficaz montagem, ao cotidiano de Tong. Fragmentos de seu dia, que de certa maneira nos conectam com seu ambiente. O mesmo acontece com Keng na primeira cena do filme, aonde um grupo de soldados – sendo Keng um deles – interage em uma floresta. Depois dessa pequena apresentação, que como em “Objeto Misterioso ao Meio-Dia”, procura não apenas entender aquele lugar e aquelas pessoas que ali convivem, mas simplesmente tentar encontrar uma plenitude presente e intensa, temos o encontro dos dois personagens. Keng está de licença por um breve período do exército e tem a chance de celebrar esse encontro com Tong. A primeira parte da história se dá de momentos e gestos nesse início de amor, ações que, como já comentado, imediatamente nos remetem a “Blissfully Yours”.

Entretanto aqui existe uma separação. A separação do casal, quando Keng volta para o exército, se dá também pela separação da obra. E aí começa uma das seqüências que sem dúvida é uma das mais extraordinárias do cinema contemporâneo. Keng agora é um soldado perdido em uma floresta, sendo caçado pelo espírito de uma besta. Essa besta é um animal devorador. O soltado Keng tem duas escolhas, a primeira é fugir eternamente, a segunda é ser devorado por essa besta, que é também, de certa forma, seu amor por Tong. Quando Keng faz sua escolha, ouvimos a voz desse amor: “I miss you, soldier. I give you my spirit, my flesh and my memories. Every drop of my blood sings our song. A song of happiness. There… do you hear it?” Que existe de maior no amor se não uma entrega? A carne, o espírito e a memória. Que existe de maior se não deixar-se ser devorado? Keng se transforma no seu amor por Tong, ele transcende à ele e a tudo o que envolve esses dois seres. Tong, Keng e seu amor são apenas um. Aqui nasce o tipo de transcendência, de “viagem energética” que irá permear o próximo experimento de Apichatpong.

“Síndromes e um Século”, o último longa do diretor até o momento, tem a particularidade de uma estrutura coletiva. Isso é, não é possível definir um personagem principal, uma situação raiz que defina toda a trajetória do filme. Por isso o nosso controle aqui é absolutamente nulo, não sabemos para onde estamos indo. E isso torna esse filme uma obra mais do que à parte dentro de uma filmografia mundial. Misto de instalação com pequenas narrativas, nos parece que nesse filme Apichatpong decidiu extrapolar qualquer limite já estabelecido nos longas anteriores. Memórias cotidianas que, baseadas no passado dos pais do diretor, levam esse conceito de Celebração como uma máxima. Uma celebração de vida, mas também uma celebração de cinema. Quando o diretor decide que imagens de uma quase-história possam também interagir com um alguns experimentos sensoriais de pura abstração, é a celebração da descoberta, de um terceiro significado que é gerado. “Síndromes e um Século” é esse significado, nossos personagens aqui não estão mais dentro de um projeto pré-estabelecido, não fazem parte desse fiapo de narrativa. Eles se transformaram em energia, eles viajam no tempo e no espaço. Nesse novo universo, tudo é possível e todo sentimento nasce de uma pureza quase divina. Se existisse uma religião “apichatponguiana”, “Síndromes e um Século” seria o seu conceito de Deus. Um filme que prega a celebração e o presente acima de todas as coisas, uma concepção quase budista em sua pureza e plenitude. Por essas e outra razões, uma crítica convencional se torna impossível. O filme aqui é experiência, aonde cada indivíduo participa de uma viagem particular.

É extremamente difícil resumir a obra do diretor que talvez seja o mais importante do nosso século em apenas um texto, por isso o objetivo aqui foi mais o de apresentação e o de esperança que, depois disso, mais curiosos busquem pela trabalho do artista. Apichatpong Weerasethakul é o diretor do presente pleno não porque vem sendo reconhecido como o mais instigante de sua geração, mas porque é um homem que sabe celebrar seu tempo, reconfigurando signos e concebendo uma linguagem inédita. Sorte a nossa, que vivemos na mesma época dessa entidade e temos a honra de compartilhar uma criação que sem dúvida alguma já está mudando a história da arte audiovisual como um todo. Celebremos com felicidade então.

Arthur Tuoto